Leia antes:
Qual o capítulo final para a Free Church of England? (clique no link), um artigo que
introduz a reflexão sobre o futuro do anglicanismo reformado no
mundo, especialmente da Free Church of England. No artigo destaca-se
algumas razões, citadas pelo Primaz Fenwick, que teriam levado o
anglicanismo livre e reformado à algumas décadas de declínio.
O Ethos Negativo
1. O que é ethos?
Ethos quer dizer identidade e modo de ser. Os anglicanos
geralmente sabem o que ethos significa, pelo menos no sentido
eclesiológico. Entre eles fala-se muito sobre o denominado ethos
anglicano. Quando falamos sobre o ethos de alguma coisa
nos referimos a identidade dela, ao seu jeito de ser, pensar e agir.
Assim, o ethos anglicano é a identidade anglicana que,
de longe, é uma das mais ricas dentro de toda a tradição cristã.
Para não estender muito esse ponto é válido dizer que o ethos
anglicano esta contido nos denominados formulários anglicanos: os 39
Artigos de Religião e o Livro de Oração Comum de 1662. É neles que se
encontra tanto a fé quanto a espiritualidade anglicanas, que se
expressam em afirmações de fé e vivência liturgia,
concomitantemente.
2. O que seria um ethos negativo?
Dentre as razões apontadas pelo Reverendíssimo John Fenwick para
o declínio do anglicanismo livre e reformado na Inglaterra, em
décadas passadas, está o que ele chama de ethos negativo.
Resumidamente, esse ethos negativo é um modo de ser que resume sua
existência a motivação pelo combate a alguma coisa, sem a
preocupação de cultivar algo original e construtivo.
Como um movimento de reforma é natural que o anglicanismo livre
tenha nascido com um combate em mente. Na época de seu surgimento a
Igreja da Inglaterra estava sendo invadida pelo pensamento
anglo-católico, que tinha como meta levar os anglicanos devolta para
Roma, se não formalmente, ao menos em prática e doutrina. Os
anglicanos livres, reformados, resolveram combater esse movimento
grandemente inspirado em John Henry Newman, que acabaria se
convertendo de vez ao Catolicismo Romano, sendo nomeado Cardeal.
Havia, pois, motivos para o combate, e boas bandeiras para
defender. O que John Fenwick ressalta é que talvez o movimento tenha
dedicado tantas forças ao combate, que pode ter se esquecido de
construir sua própria história. De fato, permitir que sua
existência gire em torno do combate a alguma coisa não é a melhor
receita para um crescimento sustentável. Como quase sempre acontece,
inicialmente o movimento ganha força e adesão de outros que possuem
a mesma motivação, mas com o tempo a tendência é a estagnação,
a menos que o protesto não seja a única razão de ser.
Não se trata, contudo, de abandonar a luta que, para começo de
conversa, originou o próprio movimento, mas de cuidar da
pavimentação do seu próprio caminho dentro da grande, rica e
diversa tradição cristã.
3. Há um futuro?
Se esse ethos negativo pode ter dominado por algumas
décadas o movimento anglicano livre e reformado, o que poderia ser
feito em prol de um futuro vibrante e promissor?
Talvez substituir o ethos negativo por um ethos
positivo? Provavelmente a resposta seja bem mais simples, óbvia
até. O que os anglicanos reformados precisam, de fato, é viver o
seu próprio ethos, ou seja, o ethos anglicano. Não precisam
de algo necessariamente novo, nem carecem de seminários sobre
crescimento de igreja ou workshops de incentivo a missões. Podem até
utilizar essas ferramentas, mas o caminho para sua fé e experiência
cristã está a cinco séculos no mesmo endereço: os formulários
anglicanos.

Caminhos alternativos são perigosos, e desnecessários. A
experiência dos anglicanos reformados no Brasil parece comprovar
isso. Tentativas de transformar ou adaptar o anglicanismo em algo
diferente, por exemplo, numa filial da Assembleia de Westminster,
se revelam todas fracassadas, sem exceção – e produzem, no
máximo, decepções, ressentimentos desnecessários e muita perda de
tempo. Por outro lado, comunidades que simplesmente são o que devem
ser, seguem firmes e vibrantes levando consigo apenas seus
formulários históricos e, acima de tudo, a Graça do Cristo.
Evidentemente, não é possível usar esses dois termos juntos,
anglicanos e reformados, e abandonar o campo de
batalha. Até porque a reforma é uma coisa constante e inescapável,
como expressa o lema “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda
est”, de Gisbertus Voetius. Porém, se é desejo abrir
caminhos, desbravar territórios e calçar sua própria trilha dentro
da História da Igreja, olhar o Caminho com uma visão integral é
necessário na mesma medida do combate pela pureza da fé.
Marcelo Lemos
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário, teremos prazer de publicar sua opinião, e se preciso, responder. Envie-nos sugestoes, ou perguntas a respeito da Igreja Anglicana Reformada do Brasil, e da Free Church Of England.