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Teologia Vocacional

Ser um Obrero Aprovado

“Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.”

2 Timóteo 2:15

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quinta-feira

Homilética: Evitando Sermões Para Boi Dormir


Marcelo Lemos*

Um velho amigo, que conosco teve suas primeiras aulas de homilética, contou ter ficado responsável por ensinar a matéria à uma classe de jovens em sua Igreja. Curioso, perguntou se poderíamos dar alguns conselhos aos seus jovens alunos. O texto a seguir reflete o teor de uma conversação ao telefone. A conversa, em tom bastante informal, se desenrolou a partir de um comentário a respeito de “sermões para boi dormir”. 

Segundo esse amigo, muitos sermões podem receber essa descrição com justiça. Pregadores monótonos, cansativos, sem vivacidade; ou, falastrões, comediantes, barulhentos em excesso. Se desejamos que nossa pregação seja relevante, viva e transformadora, precisamos compreender alguns conceitos importantes, e neste artigo falaremos a respeito de alguns. Para aqueles que desejam se aprofundar mais nos temas aqui abordados, recomendo pesquisar a bibliográfica citada no final.


1.  O Conteúdo é mais importante que o método.

A homilética, sendo uma matéria de teologia prática, nos coloca em contato com o método1. É preciso compreender e manejar corretamente os diferentes tipos de sermões como o narrativo, o expositivo, o tópico e o textual. Naturalmente, cada pessoa acaba se identificando mais com um desses métodos, praticamente adotando-o em seu trabalho corriqueiro. 

Vale ressaltar que nos últimos tempos temos visto no Brasil uma grande fomentação da pregação expositiva. Esse movimento é muito louvável, e deve o pregador inteirar-se desse método homilético de excelência2.

Por outro lado, parece que alguns pretendem que a pregação que não siga o método expositivo é de qualidade inferior, ou pior ainda, que apenas a Igreja que faz uso desse método é “realmente boa” (Denver, 2009)3. Sobre a importância do método na pregação segue um conselho aos novos pregadores: o conteúdo é mais importante que o método. A pregação expositiva é louvável e deve ser praticada, mas a Bíblia não estabelece um método canônico de pregação. Um sermão tópico pode ser maravilhosamente bíblico, e uma das provas disso é o fato de termos a disposição excelentes teologias sistemáticas, nas quais a doutrina cristã é transmitida na forma de tópicos. Além disso, acreditar que o método expositivo é garantia de fidelidade ao texto sagrado beira a ingenuidade, visto que, assim fosse, jamais encontraríamos teses exegéticas que falham em interpretar os cânones inspirados.

Não entenda mal. Esse conselho não é contra a pregação expositiva. Nem contra aquele pregador que decidiu pregar exclusivamente por esse método. Mas é preciso alertar para o legalismo religioso de alguns que parecem tentar impor regras sem autorização das Escrituras. 

2. Priorize o conteúdo sem se esquecer do método.

O conteúdo da pregação é o mais importante, contudo, é preciso também valorizar o método, e dominar suas técnicas. Como já visto, é legítimo que um pregador eleja apenas um método para o seu ministério, mas isso pode tornar seu trabalho um tanto previsível e monótono. Há outros pontos de análise. Pense no pregador que opte apenas por pregações tópicas, este jamais servirá à sua congregação uma explicação aprofundada de qualquer porção maior dos textos sagrados - com isso em mente, se for para escolher apenas um método de pregação que seja o expositivo. Contudo, uma vez que o método não define se a pregação vai ser bíblica ou não, nada impede que o pregador possa dominar e se valer das diversas abordagens.

Ao falarmos sobre o valor do método, e portanto da técnica, é preciso tomar cuidado com outra crítica; esta, oriunda daqueles que idealizam uma pregação ‘pura’, sem técnica e improvisada. É uma objeção comum entre gente iletrada, e certos círculos religiosos. Algumas tradições pentecostais são totalmente contra a preparação do sermão. Em uma delas, o pregador é obrigado a ficar em um "quartinho" separado, na companhia de outras pessoas, até que a palava lhe seja "revelada". Onde a Bíblia ensina tal coisa? Em lugar algum. Mas se alguém apontar o óbvio, a 'explicação' será que "a letra mata", e desculpas do tipo. Infelizmente, hoje encontramos pensamentos parecidos inclusive em livros com pretensões intelectuais e de grande alcance popular. Parece não faltar quem pretenda denunciar o sermão como um tipo de vaca sagrada “concebida no ventre da filosofia grega” (Viola e Barna)4.

O grande problema com essa classe de crítica mencionada acima – que já de início peca por seu anti-intelectualismo mal disfarçado - é o fato de que o Novo Testamento, apesar de inspirado por Deus, foi redigido de acordo com regras literárias e retóricas bem estabelecidas no mundo antigo - veja nota5. É o suficiente para jogar objeções do tipo por terra. Deus inspirou os autores bíblicos, e respeitou suas habilidades e limitações técnicas (linguísticas, retóricas, gramaticais, literárias, etc). Não seria ir contra a doutrina da inspiração bíblica negar que, hoje, um pregador possa valer-se de métodos que tornem sua pregação mais eficaz do ponto de vista da comunicação humana?

3. Não faça da pregação uma aula.

Por mais que a pregação ensine, ela não deve ser confundida com uma palestra. Há pregadores que expõe o texto bíblico com maestria, e no entanto, suas pregações são de pouco brilho e não levam as pessoas à ação. Podem se desculpar dizendo que seu objetivo é transmitir a verdade, independente das pessoas responderem ou não. Há muito de verdade nessa desculpa, no entanto, quando se fala em pregação, a ideia de um discurso que motiva à uma tomada de decisão é inerente. Sem isso, não há sermão, e sim palestra. Há, basicamente, duas formas de se evitar que o sermão seja dito como uma palestra.

A ênfase na aplicação prática da mensagem.

Idealmente, o pregador deve pensar na aplicação prática de sua mensagem já na escolha e apresentação do título do sermão. Um sermão intitulado “A Morte de Golias” tem cara de palestra, mas um sermão chamado “Cinco Lições Sobre a Morte de Golias”, tem cara de sermão. Afinal, o objetivo do sermão não é simplesmente ensinar os fatos a respeito da morte de Golias, mas apresentar o que aqueles fatos tem para ensinar hoje. Do título à conclusão, a ênfase na aplicação das verdades bíblicas na vida do ouvinte deve estar presente.



James Braga (1986), dedica um capítulo inteiro de seu manual de homilética para o tema da aplicação do sermão. “A aplicação”, afirma o autor, “é um dos elementos mais importantes do sermão. Mediante esse processo, apresentamos ao ouvinte as reivindicações da Palavra de Deus, a fim de obter sua reação favorável à mensagem. Quando adequadamente empregada, a aplicação mostra a pertinência dos ensinos da Bíblia à vida diária da pessoa, tornando aplicáveis a ela as mensagens da revelação cristã” (pg. 185). Mesmo um método como o narrativo, que permite prender a atenção dos ouvintes ao se contar belas e empolgantes históricas bíblicas, precisa da aplicação. É por meio da aplicação que o ouvinte é intimado a avalisar sua conduta atual a luz dos princípios extraídos da Palavra de Deus. Contar a história de Davi e Golias pode ser qualquer coisa, contar essa mesma história e demonstrar o que ela tem para ensinar hoje é pregação.

A paixão ao transmitir a mensagem.

Além da aplicação, o pregador precisa de outro elemento de vivacidade ao comunicar verdades da Palavra de Deus: fogo! Ou, se considerar essa palavra demasiadamente carismática, usemos essa: paixão! Nada é mais desinteressante que um pregador chato, cansado e sem vida no Púlpito. Koller identifica na dramatização de narrativas bíblicas uma forma de despertar o interesse da audiência.

Dramatize incidentes da Escritura, especialmente os obscuros ou pouco conhecidos. Pode-se fazer isso sem tornar-se teatral ou sensacional, ou satisfazendo o gosto popular da multidão. Sobre Jesus está registrado que “a grande multidão o ouvia com prazer” (Mc 12:37). As pessoas simplesmente ficavam fascinadas tanto pelo que Ele dizia como pela maneira vívida e pictórica como o dizia. “Sem parábolas nada lhes dizia” (Mt 13:34). Os ouvintes gostam do pitoresco (Koller, pg. 100).

Cabe citar aqui o grande valor do uso de boas ilustrações, que nas palavras de Braga (1986), servem como janelas que permitem enxergar a verdade que está sendo transmitida. Ao ilustrar uma verdade, narrar um acontecimento bíblico, ou aplicar os princípios teológicos expostos, vale a regra de ouro de falar com autoridade, confiança e vivacidade. Para isso é preciso fogo, paixão. O pregador é a pessoa sobre quem a comunidade colocou a responsabilidade de entrar nos tesouros da Palavra de Deus. Ao retornar do tesouro ele deve portar pedras de precioso valor, devendo entregá-las com amor e alegria para o deleite e enriquecimento do povo de Deus.

Zibordi (2007), diz que em I Tessalonicenses 1:5 é possível identificar os três elementos retóricos necessários ao sermão6: o logos, que é a palavra-conteúdo da mensagem; pathos, o fervor e a paixão daquele que comunica a mensagem, e ethos, uma referência ao caráter do próprio pregador, sua dignidade como pessoa e como mensageiro de Deus. Neste artigo buscamos, resumidamente, comentar alguns princípios que talvez sejam mais urgentes para o momento atual, considerando que estamos presenciando uma era marcada por polarizações. Se por um lado temos pregações empolgadas, mas sem conteúdo bíblico e teológico relevante, do outro encontramos pregações com muito conteúdo, mas com pouca preocupação em fomentar a práxis cristã. Ora valorizamos o método, ora valorizamos o encanto retórico, especialmente quando causa comoções. A virtude do pregador deve estar no meio, valorizando a técnica, o conteúdo e o poder da mensagem que foi incumbido de transmitir.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England, editor do Olhar Anglicano, e da Revista Báculo
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Notas Bibliográficas

1 O método é um dos enfoques da homilética, especialmente na homilética formal.

2 Há em Português obras excelentes sobre as técnicas da exposição. KOLLER, Charles W.: Pregação Expositiva sem Anotações. Como pregar sermões dinâmicos. Mundo Cristão, São Paulo, 1984. BRAGA. James: Como Preparar Mensagens Bíblicas, Ed. Vida, 1986. SOUZA. Itamir Neves de: Atos, Uma História Singular: 77 esboços expositivos. Descoberta, Curitiba, 19999. LOPES. Hernandes Dias: A Importância da Pregação Expositiva Para o Crescimento da Igreja. Candeia, São Paulo, 2004. Em Espanhol outras obras se destacam. OLFORD. Stephen F.: Guía de Predicación Expositiva. Broadman & Holman Publishers, Tennesse, 1998. RICHARD. Ramesh: La Predicación Expositiva: sete passos para la Predicación Bíblica. Faculdade Internacional de Educación Teológica, Buenos Aires, 2002.

3 DENVER. Mark: Nove Marcas de Uma Igreja Saudável. Editora Fiel, São Paulo, 2009.

4 VIOLA. Frank; BERNA. George: Cristianismo Pagão, Abba Press.

5 Ironicamente, esse fato já foi publicado no blog do próprio Viola, numa entrevista com o erudito do Novo Testamento, Witherington Bem III, que publicou obras como New Testamente Rhetoric: Na Introductory Guide to the Art of Persuasion in and of The New Testament (Cascade, 2009).

6 ZIBORDI. Ciro Sanches: Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar. CPAD, Rio de Janeiro, 2007.

segunda-feira

John Stott: Por que redescobrir o Antigo Evangelho?



John Stott 1

Por que redescobrir o Antigo Evangelho? 2

Não há dúvida de que o mundo evangélico de nossos dias encontra-se em um estado de perplexidade e flutuação. Em questões como na prática do evangelismo, no ensino sobre a santidade, na edificação da vida das igrejas locais, na maneira dos pastores tratarem com as almas e exercerem a disciplina há evidências de uma insatisfação generalizada com as coisas conforme elas estão, bem como de uma insatisfação geral acerca do caminho à frente.

“Há evidências de uma insatisfação generalizada com as coisas confome elas estão no mundo evangélico. Isso se deve ao fato que temos perdido de vista o Evangélho Bíblico”.

Esse é um fenômeno complexo, para o qual muitos fatores têm contribuído. Porém, se descermos até à raiz da questão, descobriremos que essas perplexidades, em última análise, devem-se ao fato que temos perdido de vista o evangelho bíblico. Sem o percebermos, durante os últimos cem anos temos trocado o evangelho por um substitutivo que, embora lhe seja semelhante quanto a determinados pormenores, trata-se de um produto inteiramente diferente. Daí surgem as nossas dificuldades; pois o produto substitutivo não corresponde às finalidades para os quais o evangelho autêntico do passado mostrou-se tão poderoso. 

O novo evangelho fracassa notavelmente em produzir reverência profunda, arrependimento profundo, humildade profunda, espírito de adoração e preocupação pela situação da Igreja. Por quê? Cumpre-nos sugerir que a razão jaz em seu próprio caráter e conteúdo. Não leva os homens a terem pensamentos centrados em Deus, temendo-o em seus corações, mesmo porque, primariamente, não é isso que o novo evangelho procura fazer. Uma das maneiras de declararmos a diferença entre o novo e o antigo evangelho é afirmar que o novo preocupa-se por demais em "ajudar" o homem — criando nele paz, consolo, felicidade e satisfação — e pouco demais em glorificar a Deus.

“Enquanto o alvo principal do 'antigo' Evangelho era ensinar os homens a adorarem a Deus, a preocupação do 'novo' é fazer os homens se sentirem melhor!”.

O antigo evangelho também prestava "ajuda" — mais do que o novo, na realidade. Mas fazia-o apenas incidentalmente — visto que sua preocupação primária sempre foi a de glorificar a Deus. Era sempre e essencialmente uma proclamação da soberania divina em misericórdia e juízo, uma convocação para os homens prostrarem-se e adorarem ao todo-poderoso Senhor de quem os homens dependem quanto a todo bem, tanto no âmbito da natureza quanto no âmbito da graça. Seu centro de referência era Deus, sem a mínima ambiguidade. Porém, no novo evangelho o centro de referência é o homem. Isso é a mesma coisa que dizer que o antigo evangelho era religioso de uma maneira que o novo evangelho não o é. Enquanto que o alvo principal do antigo era ensinar os homens a adorarem a Deus, a preocupação do novo parece limitar-se a fazer os homens sentirem-se melhor. O assunto abordado pelo antigo evangelho era Deus e os Seus caminhos com os homens; e o assunto abordado pelo novo é o homem e a ajuda que Deus lhe dá. Nisso há uma grande diferença. A perspectiva e a ênfase inteiras da pregação do evangelho se alteraram.

Dessa mudança de interesses originou-se a mudança de conteúdo, pois o novo evangelho na realidade reformulou a mensagem bíblica no suposto interesse da prestação de "ajuda" ao homem. De acordo com isso, não são mais pregadas verdades bíblicas tais como a incapacidade natural do homem em crer, a eleição divina e gratuita como a causa final da salvação, e a morte de Cristo especificamentepelas Suas ovelhas. Essas doutrinas, segundo o novo evangelho, não "ajudam" o homem; mas antes, contribuem para levar os pecadores ao desespero, sugerindo-lhes que eles não podem salvar-se, através de Cristo, pela sua própria capacidade. (Nem é considerada a possibilidade desse desespero ser salutar; antes, é aceito como ponto pacífico que o mesmo não é saudável, visto que destroçaria a nossa autoestima.) Sem importar exatamente como seja a questão, o resultado dessas omissões é que apenas uma parcela do evangelho bíblico está sendo pregada como se fosse a totalidade do mesmo; e, uma meia-verdade que se mascara como se fosse a verdade inteira torna-se uma mentira completa. Assim, apelamos aos homens como se eles todos tivessem a capacidade de receber a Cristo a qualquer momento.

“Apenas uma parcela do Evangelho Bíblico está sendo pregada como se fosse a totalidade do mesmo; e, uma meia-verdade que se mascara como se fosse a verdade inteira torna-se uma mentira completa”.

Falamos sobre a Sua obra remidora como se Ele nada mais tivesse feito do que morrer para capacitar-nos a nos salvarmos, mediante o nosso crer. Falamos sobre o amor de Deus como se isso não fosse mais do que a disposição geral de receber qualquer um que queira voltar-se para Deus e confiar nEle. E retratamos o Pai e o Filho não como soberanamente ativos em atrair a Eles os pecadores, mas como se Eles se mantivessem em quieta impotência, "à porta do nosso coração", esperando nossa permissão para entrar. É inegável que é dessa maneira que andamos pregando; e talvez seja assim que cremos. Porém, cumpre-nos dizer decisivamente que esse conjunto de meias-verdades distorcidas é algo totalmente diverso do evangelho bíblico. A Bíblia é contra nós, quando pregamos dessa maneira; e o fato que tal pregação tornou-se a prática quase padronizada entre nós serve apenas para demonstrar quão urgente se tornou que revisássemos toda a questão.

Redescobrir o antigo, autêntico e bíblico evangelho, e fazer nossa pregação e nossa prática ajustarem-se ao mesmo, talvez seja a nossa mais premente necessidade atual. E é precisamente nesse ponto que o tratado da Owen sobre a redenção nos pode ser útil.

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1 John Stott é um dos autores evangélicos mais influentes no evangelicalismo brasileiro, respeitado tanto por reformados quando por evangélicos. Teólogo e pastor anglicano, Stott faleceu em 2011.

2 Extraído do livro O Antigo Evangelho, um ensaio introdutório ao livro de John Owen, A Morte da Morte na Morte de Cristo, Editora Fiel, 1999.

3 “especificamente por suas ovelhas”; o autor se refere ao chamado terceiro ponto do Calvinismo, que ensina ter Cristo morrido apenas pelos eleitos para a Salvação. Os 39 Artigos de Religião também ensinam a “predestinação para a vida”, no entanto, afirmar a Expiação Limitada não é uma necessidade, devendo este ponto ficar a critério de cada fiel anglicano (Nota do Editor).

sexta-feira

5 Mitos Sobre a Igreja Anglicana

 
Esse ano (2017) comemoramos 500 Anos de Reforma Protestante. Tantos anos depois, e tanto contribuiu a Igreja Anglicana para o progresso da Teologia Reformada, sem que isso impedisse que alguns mitos sobre ela fossem sendo perpetuados no imaginário comum. Nesse texto abordaremos alguns deles.

quarta-feira

Quando conheci Jesus? Uma crônica sobre Deus que é Amor




Marcelo Lemos* 

Quando você conheceu Jesus? Essa pergunta me foi feita recentemente em um grupo do qual faço parte. Se compreendo a pergunta corretamente, o verbo conhecer aqui implica a fé salvífica. Então, não deixa de ser uma pergunta estranha de se fazer à alguém que nasceu em um lar cristão. Vou tentar respondê-la contando um pouco da minha jornada na fé. Por ter sido criado em uma família evangélica extremamente legalista, cresci com sentimentos de medo, frustração, culpa, e uma compreensão bem limitada sobre o real significado da Graça de Deus. Minha família e amigos acreditavam, por exemplo, que mesmo tendo ido à Igreja todos os dias, de Segunda a Domingo, por anos a fio, se não levantasse as mão na hora do Apelo, não teria o nome escrito no livro da vida. Achava essa ideia sem sentido, mas um dia tomei coragem, levantei as mãos, fiz a famosa oração do pecador e ganhei uma Bíblia de presente. Estava oficialmente salvo. E com uma Bíblia a mais na biblioteca.

Legalismo sem graça.


Conheci Jesus ao responder àquele apelo? Prefiro acreditar que não. Porque, na verdade, eu sempre acreditei em Jesus. Nasci em um lar católico romano, e fui batizado na Paróquia São Geraldo Magela, por Padre Léo. Com a conversão de meus pais ao evangelicalismo, acabei não fazendo a catequese da paróquia, mas fiz todas as escolas dominicais disponíveis na Igreja dos meus pais (pelo menos até que fossem proibidas pelas lideranças). Assim, eu sempre soube que Jesus era o único Caminho, Verdade e Vida. Outra razão para não acreditar naquela 'conversão' é que, com o tempo, descobri que tanto o Apelo quanto a Oração do Pecador são ritos sacramentais recém-criados na história da Igreja e popularizados por Charles Finney1. Assim, se milhões de cristãos foram salvos nos últimos dois mil anos sem esses dois rituais evangélicos, por que a regra do jogo teria que mudar justamente na minha vez? Não posso ser tão azarado.

A verdade que é não me atrevo a responder a pergunta. Contento-me na certeza de que Deus, primeiro, me conheceu com amor eletivo2. Usarei a pergunta, no entanto, para contar sobre como compreendi a Graça de Deus, e como ela impactou minha vida. Talvez o leitor não consiga mensurar o peso de uma religiosidade legalista, especialmente se não viveu a mesma experiência3. O que eu entendia sobre ser cristão tinha a ver com um catálogo4 muito extenso de proibições, algumas até engraçadas5. Por exemplo, a gente não podia usar jeans, roupas muito coloridas, nem óculos escuros. Eu sempre gostei de dormir com o mínimo de roupa possível, mas se Jesus voltasse a noite, diziam que eu ficaria para trás. Uma vez apanhei por fazer piada sobre Jesus voltando enquanto os crentes tomavam banho. Acho que fiz algum gracejo sobre Jesus deixando para trás algumas irmãs pelancudas pegas desprevenidas no banho... Não tinha graça, pra ser sincero.  Qualquer deslize podia te mandar para a geladeira por meses ou anos, o que significava ser cortado das atividades da Igreja. No jargão da época a gente dizia “ser colocado de banco”. Se o leitor suspeitar que quem mais sofria com tanto legalismo eram as mulheres estará coberto de razão.

Deus que é Amor


Mas tive o privilégio de encontrar aquela mensagem de Graça que incendiou o mundo nos dias da Reforma. Aconteceu meio por 'acaso', e se deu num momento bem deliciado da minha adolescência. Aos 16 anos já tomava minha dose diária de sertralina. Bem cedo compreendi a imagem sugerida pela noite escura da alma. Se algum pastor, pai ou mãe legalista estiver lendo essas linhas imploro que compreenda o seguinte: o legalismo mata.  Um legalista é um assassino, da Graça de Deus, de famílias, de pessoas e de reputações. O leitor não precisa acreditar no que digo, pode fazer melhor que isso lendo o primeiro capítulo da obra “É Proibido”, de Ricardo Gondim6. “A letra mata”, é o discurso dos mentirosos, e dos que tem medo de assumir seu próprio analfabetismo teológico. Por sorte eu sempre fui meio 'desviado', e como não podia assistir televisão, mergulhava no mundo da literatura. E foi fuçando um caixa de livros que alguém jogara fora que encontrei o livro “O Despertar da Graça”, de Charles Swindoll7. Ler aquelas páginas destruiu todo o legalismo que havia em mim, e me conduziu humilhado, mas confiante, aos pés da Cruz de Jesus.

Quando compreendi a mensagem da Graça, senti escamas caírem dos meus olhos. E não há nada melhor que o sabor da liberdade. Finalmente estava livre de todo jugo, de todo mandamento humano. Se tenho algum dever, alguma obrigação, alguma meta moral, apenas as Escrituras podem me dizer. Temos na Igreja Anglicana Reformada um documento histórico, redigido nos dias Reforma. Os 39 Artigos de Religião dizem que ninguém pode exigir nada dos fiéis a menos que a Bíblia assim ordene como mandamento de Deus. Por causa dessa mensagem libertadora, minha jornada teológica e espiritual tomou rumos que eu jamais teria imaginado. Claro, cometi erros e enfrentei oposições pelo caminho. “Sua graça me basta”. É por causa dessa mensagem que, ainda hoje, me sinto no dever de repelir todo assassino da Graça, mesmo aqueles que encontro entre meus irmãos herdeiros da Reforma. Sim, pois para minha decepção, acabei descobrindo que muito reformado é tão legalista quanto os pentecostais da minha infância e adolescência foram. Ah, os assassinos da Graça! Eles estão por todo lado! Às vezes, dentro de cada um de nós.

A Graça me fez compreender também que a natureza humana é tão corrompida pelo pecado, tão orgulhosa e cheia de auto justificação, que sempre pensará que pode merecer algo de Deus. Não é maravilhoso saber que Cristo já fez tudo por nós, e que a salvação não depende de obras ou de qualquer coisa que possamos fazer? É! Porém, nosso pecado, nosso orgulho, nossa autoconfiança, sempre tentarão nos convencer a encontra algo de bom em nós mesmos. O veneno do Éden nos cegou, a língua da serpente nos seduziu a pensar que precisamos merecer o céu.  Não sei exatamente quando conheci Jesus, mas sei quando descobri que o  legalismo é uma doença, e que a Graça é a cura.  Porque o legalismo conduz aos juízes do Sinédrio, mas a Graça nos conduz ao Crucificado, de quem jorrou vida em abundância.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England, editor do Olhar Anglicano, e da Revista Báculo
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Notas Bibliográficas

1 Mas a técnica não foi inventada por Finney. Seus primeiros registros na História datam do Século XVIII entre as Igrejas Metodistas Episcopais. Tradicionalmente, a arquitetura das Igrejas anglicanas – de onde surge o movimento metodista – chama a área à frente da mesa de comunhão de altar, e ocasionalmente, alguns pregadores metodistas convidavam os pecadores tocados pela pregação à irem àquele local. Mais tarde, o altar deu lugar ao ‘banco dos ansiosos’, onde aqueles que desejavam aprender mais sobre fé e arrependimento se sentavam, enquanto o restante da congregação seguia em oração. A técnica foi adotada pela maioria dos evangelísticas itinerantes, como Finney, e transformou-se num sacramento evangélico. Veja mais em “O Convite ao Altar e a Chamada Eficaz”, de Sam Hamstra Jr., Monergismo.

2 “Não me escolhestes vós a Mim, mas Eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” (S. João 15:16).

3 Apesar do pesado fardo que impõe, é muito difícil a pessoa tomar a decisão de abandonar o legalismo. André Santos, pastor, afirma que “Uma das coisas mais difíceis que existem na caminhada cristã, e tenho descoberto no decorrer dos anos, é deixar de ser legalista. Não é do dia para a noite que uma pessoa deixa para trás antigas formas de pensar e agir que lhes foram inculcadas durante anos” (O Legalismo e seus desdobramentos, Ultimato, acesso em 20/05/2018).

4 Recentemente tivemos acesso ao novo “RI”, regulamento interno, da Deus é Amor, e, para nossa surpresa, concessões começam a ser feitas. Por exemplo, na página 32 já não se proíbe o uso de pandeiro e bateria, desde que “se consulte a Sede Mundial para orientações”. Também já não se pune quem usa métodos anticoncepcionais, apenas é dito que “a Igreja aconselha os casais... que procurem os métodos naturais”, e enquanto antes se podia excluir uma irmã que cortasse o cabelo, a proibição agora vem em forma de orientação (pg. 39). Assistir televisão ainda é prescrito como pecado punível pelos pastores (pg. 40).

5 Apesar de uma maior permissividade quanto ao tamanho do cabelo, a denominação segue proibindo tratamentos capilares, e também o uso de perucas. Mas, se “houver perda total do cabelo”, a infeliz irmã é aconselhada a procurar a diretoria “que analisará o caso” (pg. 42).

6 GONDIM. Ricardo: “É Proibido. O que a Bíblia Permite e a Igreja Proíbe”. Mundo Cristão, São Paulo, 1998.

7 SWINDOLL. Charles R.: “O Despertar da Graça”. Editora Bom Pastor, São Paulo, 1004. Atualmente há uma edição da Mundo Cristão, de 2009.

sábado

Revista Báculo 2018!



“Graça e Paz! Este mês temos um tema de fundamental importância para a vida da Igreja: “a suficiência das Escrituras”. Essa é uma doutrina que precisa ser novamente avivada no coração do povo de Deus. Porque há muitas seduções pelo caminho, diversos atalhos e perigos a nossa volta.

O apóstolo S. Paulo fala sobre o perigo de sermos “levados em roda por todo vento de doutrina” (Ef 4:14). Em outro lugar alerta sobre aqueles que “vos inquietam e querem transtornar o Evangelho de Cristo” (Gal 1:7). A forma recomendada nas Escrituras para lidar com tais desafios encontramos em Judas 3: “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”.

Por isso estamos felizes em colocar em suas mãos a revista deste mês. Nossa matéria principal irá demonstrar o valor e a importância fundamental das Escrituras para a vida da Igreja, hoje e sempre. Além disso, você irá acompanhar as principais notícias da Igreja deste mês, além de conferir seções especiais como Café com o Bispo e na Escola dos Primeiros Cristãos.

E você sabia que nos escritos dos Pais da Igreja encontramos ensinamentos valiosos a respeito da primazia das Escrituras? Surpreenda-se este mês lendo um pouco mais a respeito desse assunto. Por fim, não deixe de nos escrever. Sua participação é valiosa para nós!


 


domingo

Pais da Igreja e Discipulado


Marcelo Lemos*

Quando o assunto é discipulado, os evangéli­cos poderiam aprender muito com os cris­tãos antigos. Com São João Crisóstomo, por exemplo, de quem herdamos uma série de cateque­ses batismais. Crisóstomo era um grande orador, e tinha apreço especial por preparar os novos conver­tidos para o Santo Batismo. Em seu tempo, pregou contra o paganismo, conclamando as pessoas à uma vida nos caminhos do Senhor. Ele acreditava que “basta um só homem para reformar todo um povo”.

A catequese dos primeiros cristãos foi tão bem-su­cedida devido a sua piedade e comprometimento. Os temas doutrinários eram importantes: logo após a era apostólica, deu-se início a era dos apologis­tas, marcada, segundo o historiador da Igreja Da­niel Rops pelo esforço de se explicar racionalmente a tradição cristã (História da Igreja, Volume I, pg. 276). A catequese era profunda e sólida, como po­demos ver pelas homilias iniciáticas de São Basí­lio Magno; por exemplo, sua homilia sobre as ori­gens do homem, que o autor mesmo classifica como “urgente e muito proveitosa para vossa iniciação” (Basílio de Cesárea, Patrística Vol. 12; Ed. Paulus).

Entretanto, a catequese não se resumia ao intelecto, abrangia a vida como um todo. A fé cristã não era apre­sentada como um mero novo conjunto de crenças, mas principalmente como um novo viver. O discipulado não tinha como objetivo somente a formação dou­trinária, era também um discipulado para a vida. Um discipulado no qual o novo convertido não era deixado a sós em seu dia a dia, antes, era acompanhado passo a passo, como um recém chegado à família de Deus.

Veja-se o exemplo de Orígenes, de quem Eusébio de Cesareia diz que começou a dirigir a escola de cate­quese de Alexandria quando tinha apenas 18 anos, e que alcançou grande renome, “pois, não os assis­tia apenas na prisão nem só quando interrogados e condenados, mas ainda depois da sentença final, com a maior audácia e expondo-se ao perigo, fica­va junto deles ao serem os santos mártires levados para a morte. Assim, quando ele avançava corajo­samente e com grande ousadia saudava os márti­res com um beijo, acontecia frequentemente que o povo pagão que os cercava se enfurecia e estava a ponto de se precipitar sobre ele, mas estendia-se a mão de Deus para socorrê-lo e fazer com que mi­lagrosamente escapasse” (CESAREIA, Eusébio de; História Eclesiástica; Patrística Vol. 15, Paulus).

É possível comparar o discipulado daqueles cristãos como a prática comum de hoje? Se para nós o disci­pulado é algo professoral, de cima pra baixo, naqueles dias era uma coisa orgânica, viva. Eram também pro­fessores de doutrina, teologia e moral, mas não limita­vam-se a passar aos discípulos um conjunto de enun­ciados. Ser um discipulador era um compromisso de viver junto, caminhar junto, sofrer junto, padecer e morrer junto se preciso. Em outras palavras, o disci­pulado não era uma função, mas um estilo de vida.

Quanto temos regredido em nosso discipula­do? No ensino teológico, ou pecamos por ex­cesso de racionalidade, ou pela atitude anti­-intelectual. Na prática da vida, raramente conseguimos visualizar a ligação entre nossos enor­mes livros dogmáticos e a vida do homem comum.

Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England (Igreja Anglicana Reformada do Brasil). Editor do blog ‘Olhar Anglicano’, e da revista ‘Báculo’ Também escreve para os blogues ‘Cristandade em Debate’ e ‘O Barco’. Artigo originalmente publicado na Revista Báculo.

quinta-feira

Por Que Abandonei a Escatologia da Novela 'Apocalipse'



Marcelo Lemos*

'Apocalipse', novela da Record TV (2018), não faz o mesmo sucesso que 'Dez Mandamentos' (Record TV, 2015). Ainda assim, o capítulo que retratou a teoria do arrebatamento secreto rendeu bons números no IBOPE. Mas, por que digo teoria do arrebatamento secreto? Porque, ao contrário do que boa parte do público possa acreditar, o arrebatamento secreto não é uma doutrina histórica da Igreja, tendo surgido no início do Século XX, ou seja, há pouco menos de 200 anos. Existe uma pretensão de datação mais antiga com base em duas alegações de antiguidade (BRAY, 1995; JEFFREY, 1995; apud MACPHERSON)1, mas não passa disso, uma tentativa de dar à teoria uma autoridade histórica até agora desconhecida.

Entretanto, como essa é uma teoria é extremamente popular, muitos sequer imaginam que a fé histórica da Igreja jamais falou de um arrebatamento secreto. Há uma reação imediata quando experimento comentar, com alguns familiares e amigos, a teoria por trás da novela ‘Apocalipse’. “Todas as Igrejas ensinam isso”. Ou, “sempre acreditei dessa forma, porque é exatamente isso que a Bíblia diz”. E é bem possível que a maioria das igrejas evangélicas a ensinem, mas não é verdade que todas façam isso. Também precisamos questionar se é verdade que a Bíblia lhe dá algum suporte.

Vamos olhar para o que ensina a teoria do arrebatamento secreto. Em termos práticos, essa teoria diz que Jesus Cristo virá mais duas vezes ao mundo. Hunt, renomado defensor do arrebatamento secreto, afirma isso textualmente em um artigo publicado no site da revista Chamada da Meia Noite. Ele afirma que, primeiro, Jesus irá voltar sem aviso, antes da Grande Tribulação, o que pegará a maior parte das pessoas de surpresa. Porém, o autor defende que esta não será a única vinda, pois “as Escrituras ensinam outra vinda de Cristo”, após a Grande Tribulação, “quando todos os sinais já estiverem sido cumpridos e todos souberem que Ele está voltado”. Sem rodeios, o autor declara que é impossível escapar “do fato de que duas vindas de Cristo ainda se darão no futuro: [...] as duas não podem ser o mesmo evento” (CHAMADA, 2012, grifos nossos)2.

Apesar das declarações de Hunt, geralmente um defensor do arrebatamento secreto não costuma falar abertamente uma Segunda e uma Terceira Vinda. Sua literatura irá usar apenas a expressão Segunda Vinda, por mais que isso signifique uma contradição interna na teoria. E, como veremos, o ensino sobre duas vindas de Cristo no futuro não pode ser encontrado nas Escrituras. Para resolver esse problema, a maioria dos seus defensores argumentam que, de fato, haverá somente uma Segunda Vinda, porém, dividida em duas fases. Essa explicação, que difere das afirmações de Hunt, pode ser encontrada na Teologia Sistemática de Thomas Paul Simmons, publicado no site Palavra Prudente. No capítulo intitulado ‘As Duas Fases da Vinda de Cristo’, autor não apenas defende uma Segunda Vinda em duas fases, como também admite que a Bíblia ensina apenas uma vinda futura, ao mesmo tempo que desdenha da óbvia contradição que isso produz em sua teoria escatológica.

Nossos oponentes escarnecem da ideia de um período de tempo entre as duas fases da vinda de Cristo. Dizem que ensinamos que haverá duas vindas em vez de uma. Podem chama-la o que quiserem. O Novo Testamento fala só de uma vinda, mas claramente revela que essa uma vinda consistirá de duas fases, separadas por um período de tempo. Preferimos crer o que ele ensina, desatendendo as perversões dele (PALAVRA PRUDENTE, acesso em 8 mai. 2018, grifos nossos)3.

A conclusão é que a teoria do arrebatamento secreto implica dizer que haverá duas vindas de Cristo. Como já vimos, tal conclusão é apontada também por alguns de seus próprios teóricos (CHAMADA, 2012), não sendo, como sugere Simmons, acusação de oponentes escarnecedores. Outro renomado teórico dessa interpretação chega a falar em uma “tríplice divisão natural” (DA SILVA, 1988, pg. 12, grifos nossos)4 da Segunda Vinda, uma para a Igreja, no Arrebatamento, outra para Israel, no término da Grande Tribulação, e uma terceira, contra Gogue e Magogue, no término do Milênio. Uma coisa é certa: compreender a teoria é muito trabalhoso, por mais que afirmem que ela seria claramente ensinada nas Escrituras. Seja como for, continuaremos nossa análise perguntando: e o que acontecerá nas eufemisticamente chamadas5 duas fases da “Segunda Vinda”?

Segundo a teoria do arrebatamento secreto, na primeira Segunda Vinda, Jesus não será visto pelo mundo, mas apenas pelos cristãos. Daí ser dito que ele será secreto, pois retirará do mundo os que receberam o novo nascimento, mas deixará para trás os incrédulos e os falsos crentes [PENTECOST, 2006]6. Somente a Igreja, portanto, ouvirá o som da trombeta enquanto é levada para encontrar com Jesus nas nuvens do céu. Livros, filmes, pregações e hinos baseados nessa ideia falam de aviões desgovernados, porque o piloto foi arrebatado, ou de pais, filhos e mães que, de repente, desaparecem do mundo. Foi justamente essa cena que concedeu à “Apocalipse” (Record TV, 2018), um momentâneo sucesso de audiência. Milhões de pessoas acreditam na teoria, ou pelo menos, a aceitam sem maiores questionamentos. Já na segunda Segunda Vinda, a teoria diz que Jesus voltará para colocar fim ao Reino do Anticristo, encerrando também a Grande Tribulação (que acreditam irá durará sete anos). 

O Novo Testamento, como admite até mesmo autores dessa escola (PALAVRA PRUDENTE, 2018), fala apenas de uma Segunda Vinda. “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o Juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (Hb 9:27,28, NVI, grifos nossos). Observe a ênfase do texto na singularidade de cada um dos eventos citados. Os homens estão destinados a morrerem uma única vez. Assim como Cristo foi sacrificado uma única vez. E voltará, pela segunda vez, para o seu povo. A primeira vinda corporal de Cristo foi na Encarnação7, por isso sua vinda futura é chamada segunda. Em nenhum lugar a Bíblia fala de uma terceira vinda. Portanto, falar que acontecerão duas vindas futuras de Cristo (CHAMADA, 2012), ou que Jesus voltará a prestação, em duas fases (PALAVRA PRUDENTE, 2018), não resiste ao crivo das Escrituras.

É verdade que a Igreja encontrará o Senhor nos ares. “Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com ele nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre” (I Tes 4:17, NVI). Este evento será instantâneo, numa fração de segundo, como descreve o mesmo apóstolo S. Paulo em I Cor. 15: 51,52: “Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados” (NVI). Mas em nenhum momento se diz que qualquer dessas coisas acontecerá secretamente.

De fato, a Segunda Vinda de Jesus será não apenas visível, mas estrondosa, “ao som da última trombeta, pois a trombeta soará” (I Cor 15:51,52). Essa trombeta também é citada em Tessalonicenses: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus” (I Tes 4:16, ACF 95). Alguns podem alegar que apenas os cristãos ouvirão a trombeta de Deus, mas quem diz isso são os teólogos dessa escola, não a Bíblia. Observe que apóstolo diz que a trombeta que anuncia tais coisas será a “última trombeta”. Buscando outras passagens das Escrituras encontramos que todas as nações do mundo presenciarão o toque dessa trombeta, e não que a Igreja secretamente a ouvirá.
  
Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos; mas todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados (I Coríntios 15:51-52, ACF 95, grifos nossos).

E tocou o sétimo anjo a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de Nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. E os vinte e quatro anciãos, que estão assentados em seus tronos diante de Deus prostraram-se sobre os seus rostos e adoraram a Deus, dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, e que hás de vir, que tomaste o teu grande poder, e reinaste. E iraram-se as nações, e veio a tua ira, e o tempo dos mortos, para que sejam julgados, e o tempo de dares o galardão aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra (Apocalipse 11:15-18, ACF 95, grifos nossos)


Também as mudanças operadas no cosmos por ocasião da Segunda Vinda desmentem a ideia de que haverá um arrebatamento secreto,
  
Mas o Dia do Senhor virá como o ladrão de noite, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade, aguardando e apressando-se para a vinda do Dia do Senhor, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça (I Pe 3: 10-13, ACF 95).

 A teoria é, no entanto, muito engenhosa e impressiona quem procura conhecê-la lendo seus manuais teológicos e ficções, o que pode explicar sua popularidade 8. Por muitos anos acreditei, preguei e ensinei a teoria do Arrebatamento Secreto sem a menor hesitação. Suas ficções são repletas de ação e suspense, e seus manuais teológicos enfileiram dezenas de referências. Acontece que, geralmente as referências bíblicas são isoladas e sem o trabalho de explica-las expositivamente. A maioria dos autores parece esperar que o leitor simplesmente confie que os textos citados realmente confirmem a teoria (veja nota9). Mas, por que as pessoas são convencidas? Talvez por algum tipo de apelo a autoridade, já que é preciso dedicar muito tempo e esforço apenas para compreender a lógica desse sistema interpretativo. Nestes casos, as pessoas tendem a achar mais prático e seguro confiar nos especialistas. Até porque, o sistema é tão confuso e complexo, que a maioria terá que consultar os manuais especializados de qualquer maneira. Então, para facilitar a vida daqueles que não possuem grande treinamento em teologia, algumas bíblias e manuais incluem infográficos detalhados explicando a complicada cronologia escatológica. O cenário perfeito.

Quando abandonei a teoria do arrebatamento secreto, tinha resolvido dedicar várias semanas ensinando sobre ela numa congregação pentecostal que pastoreava. Mandei imprimir cópias de uma apostila que havia escrito sobre o tema, e comparecia as aulas munido de dezenas de versículos, e de um colorido infográfico chamado ‘O Plano Divino Através dos Séculos’. Se algum aluno não conseguisse entender a teoria apenas com as leituras dos versículos, geralmente entendia, ou fingia entender, quando olhava para a cronologia ilustrada nas cores e ilustrações do infográfico. Geralmente funcionava muito bem. Menos com a irmã Marta. Numa de minhas palestras sobre o arrebatamento secreto, Marta foi a escolhida para ler algum versículo, que prontamente eu ia explicando.

- “Pastor”, ela pediu a palavra: “eu também acredito nisso, mas, honestamente?  Os versículos que estamos lendo não diz nada sobre ser secreto!”. Usei os argumentos canônicos da teoria, e ainda assim ela insistiu: “Verdade, pastor, também aprendi assim, e assim creio. Mas eu pensei que pelo menos um texto diria que é secreto. Me sinto confusa e frustrada por não entender”.

Igualmente frustrado, suspendi as aulas por algum tempo. Prometi aos alunos que estudaríamos outros assuntos, até que eu pudesse melhorar a qualidade do material. Estava envergonhado, mas achei melhor admitir que precisava rever as coisas e retomar o assunto com respostas mais apropriadas. Como a irmã Marta, descobri que o arrebatamento secreto que eu havia ensinado por tanto tempo, existia apenas nos manuais escatológicos de Dallas10, e no belo infográfico que eu mandara emoldurar. Quando retomei o assunto uns seis meses mais tarde, havia abandonado o Dispensacionalismo e suas estranhas teorias sobre a Segunda Vinda. Curiosamente, a irmã Marta preferiu continuar defendendo a teoria, mesmo sem conseguir prová-la.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England (Igreja Anglicana Reformada do Brasil). Editor do blog ‘Olhar Anglicano’, e da revista ‘Báculo’ Também escreve para os blogues ‘Cristandade em Debate’ e ‘O Barco’.
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Bibliografia:

1 MacPherson escreveu no artigo ‘Deceiving and Being Deceiving’, que os pré-tribulacionistas pretendem provar a antiguidade de sua interpretação recorrendo aos escritos do Rev. Morgan Edwards, de 1788, e também aos escritos medievais de Pseudo-Ephraem, 1000 anos antes. Nessa tentativa, explica o autor, “não apenas encobrem e distorcem” o que já se publicou sobre os dois autores, mas “também ocultaram e perverteram as próprias palavras” que os dois escreveram (Preterist Archive, consultado 12 abr. 2018, tradução nossa).

2 A revista Chamada da Meia Noite é uma das publicações mais populares em defesa do Dispensacionalismo e da teoria do Arrebatamento Secreto no Brasil. A citação foi extraída do artigo ‘Distinção Entre o Arrebatamento e a Segunda Vinda’, de autoria de David Hunt, publicado originalmente pela Revista em 2012, e reproduzida no site (CHAMADA, acesso em 09 mai. 2018).

3
O Palavra Prudente é um tradicional site de linha batista fundamentalista, criado pelo missionário norte-americano Calvin Gardner, falecido em 2016.

4 DA SILVA. Pedro Severino; Escatologia: Doutrina das últimas coisas. 1988. CPAD.

5 Eufemismo é quando uma palavra, locução ou acepção mais agradável é utilizada numa tentativa de suavizar ou minimizar o peso conotador de outra palavra, locução ou acepção considerada menos agradável (GOOGLE, Dicionário, acesso 9 mai. 2018). Mas, ainda que suavize a linguagem, a fim de causar impacto menor, não altera o conteúdo da afirmação. Daí a o termo ser usado como sinônimo de “abrandamento, adoçamento, atenuação, comedimento, mitigação, moderação e suavização” (NORMA CULTA, acesso 9 mai. 2018).

6 PENTECOST, J. Dwigth. Manual de Escatologia: Uma análise detalhada dos eventos futuros. 2006. Editora Vida.

7 “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (I Tim. 1:15, ARC 1995).

8 ‘Deixados Para Trás’ é um bom exemplo: a série de livros vendeu, só nos Estados Unidos, 70 milhões de exemplares, se manteve por 300 semanas na lista de best-sellers do ‘New York’, e ganhou uma versão para os cinemas.

9 Severino, por exemplo, na seção que seu livro dedica à explicar a teoria do Arrebatamento Secreto, apresenta quase 20 textos-prova, sem se dar ao trabalho de ensinar expositivamente nenhum deles. No entanto, dedica algumas páginas a explicar termos gregos que, em tese, justificariam a interpretação que ele adotou previamente (DA SILVA. Pedro Severino; Escatologia: Doutrina das últimas coisas, pgs. 12-16. 1988. CPAD). Gilberto, outro autor assembleiano, garante ao leitor que “conforme expomos acima, no arrebatamento, Jesus vem secretamente para a Igreja. Na Revelação ele vem publicamente para Israel e as demais nações”. No entanto, o que ele expõe é a teoria do arrebatamento secreto em si, e o que ela diz sobre os textos. Não há, de fato exposições dos textos apresentados, ainda que o autor faça um trabalho um pouco mais dedicado ao defender que a Igreja não passará pela Grande Tribulação, pg. 21ss (GILBERTO. Antônio, O Calendário da Profecia, pgs. 15-23. 1985.CPAD).

10 Dallas Theological Seminary, um dos principais polos de difusão da teoria. 

Conteúdo Secundário

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Nossa escola é chancelada pela New Anglican Missionary Society(NAMS), sediada na Carolina do Sul (EUA). Apoiamos a NAMS em suas iniciatias missionárias ao redor do mundo, como é o caso da Residência Missionária, um projeto ousado que possibilita estar a serviço da Igreja de Cristo em diversos locais do mundo.

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A Vocação Cristã não se limita aos dons ministeriais ou ao Ministério Ordenado. Na verdade, uma das grandes contribuições de Lutero para a teologia cristã foi uma visão bíblica da vocação, na qual cada pessoa, cada profissão e cada ato da Igreja no mundo é parte da missão do Deus Trinitariano na História. Esse curso irá transformar sua visão da vida e da vocação cristãs.

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quinta-feira

Homilética: Evitando Sermões Para Boi Dormir


Marcelo Lemos*

Um velho amigo, que conosco teve suas primeiras aulas de homilética, contou ter ficado responsável por ensinar a matéria à uma classe de jovens em sua Igreja. Curioso, perguntou se poderíamos dar alguns conselhos aos seus jovens alunos. O texto a seguir reflete o teor de uma conversação ao telefone. A conversa, em tom bastante informal, se desenrolou a partir de um comentário a respeito de “sermões para boi dormir”. 

Segundo esse amigo, muitos sermões podem receber essa descrição com justiça. Pregadores monótonos, cansativos, sem vivacidade; ou, falastrões, comediantes, barulhentos em excesso. Se desejamos que nossa pregação seja relevante, viva e transformadora, precisamos compreender alguns conceitos importantes, e neste artigo falaremos a respeito de alguns. Para aqueles que desejam se aprofundar mais nos temas aqui abordados, recomendo pesquisar a bibliográfica citada no final.


1.  O Conteúdo é mais importante que o método.

A homilética, sendo uma matéria de teologia prática, nos coloca em contato com o método1. É preciso compreender e manejar corretamente os diferentes tipos de sermões como o narrativo, o expositivo, o tópico e o textual. Naturalmente, cada pessoa acaba se identificando mais com um desses métodos, praticamente adotando-o em seu trabalho corriqueiro. 

Vale ressaltar que nos últimos tempos temos visto no Brasil uma grande fomentação da pregação expositiva. Esse movimento é muito louvável, e deve o pregador inteirar-se desse método homilético de excelência2.

Por outro lado, parece que alguns pretendem que a pregação que não siga o método expositivo é de qualidade inferior, ou pior ainda, que apenas a Igreja que faz uso desse método é “realmente boa” (Denver, 2009)3. Sobre a importância do método na pregação segue um conselho aos novos pregadores: o conteúdo é mais importante que o método. A pregação expositiva é louvável e deve ser praticada, mas a Bíblia não estabelece um método canônico de pregação. Um sermão tópico pode ser maravilhosamente bíblico, e uma das provas disso é o fato de termos a disposição excelentes teologias sistemáticas, nas quais a doutrina cristã é transmitida na forma de tópicos. Além disso, acreditar que o método expositivo é garantia de fidelidade ao texto sagrado beira a ingenuidade, visto que, assim fosse, jamais encontraríamos teses exegéticas que falham em interpretar os cânones inspirados.

Não entenda mal. Esse conselho não é contra a pregação expositiva. Nem contra aquele pregador que decidiu pregar exclusivamente por esse método. Mas é preciso alertar para o legalismo religioso de alguns que parecem tentar impor regras sem autorização das Escrituras. 

2. Priorize o conteúdo sem se esquecer do método.

O conteúdo da pregação é o mais importante, contudo, é preciso também valorizar o método, e dominar suas técnicas. Como já visto, é legítimo que um pregador eleja apenas um método para o seu ministério, mas isso pode tornar seu trabalho um tanto previsível e monótono. Há outros pontos de análise. Pense no pregador que opte apenas por pregações tópicas, este jamais servirá à sua congregação uma explicação aprofundada de qualquer porção maior dos textos sagrados - com isso em mente, se for para escolher apenas um método de pregação que seja o expositivo. Contudo, uma vez que o método não define se a pregação vai ser bíblica ou não, nada impede que o pregador possa dominar e se valer das diversas abordagens.

Ao falarmos sobre o valor do método, e portanto da técnica, é preciso tomar cuidado com outra crítica; esta, oriunda daqueles que idealizam uma pregação ‘pura’, sem técnica e improvisada. É uma objeção comum entre gente iletrada, e certos círculos religiosos. Algumas tradições pentecostais são totalmente contra a preparação do sermão. Em uma delas, o pregador é obrigado a ficar em um "quartinho" separado, na companhia de outras pessoas, até que a palava lhe seja "revelada". Onde a Bíblia ensina tal coisa? Em lugar algum. Mas se alguém apontar o óbvio, a 'explicação' será que "a letra mata", e desculpas do tipo. Infelizmente, hoje encontramos pensamentos parecidos inclusive em livros com pretensões intelectuais e de grande alcance popular. Parece não faltar quem pretenda denunciar o sermão como um tipo de vaca sagrada “concebida no ventre da filosofia grega” (Viola e Barna)4.

O grande problema com essa classe de crítica mencionada acima – que já de início peca por seu anti-intelectualismo mal disfarçado - é o fato de que o Novo Testamento, apesar de inspirado por Deus, foi redigido de acordo com regras literárias e retóricas bem estabelecidas no mundo antigo - veja nota5. É o suficiente para jogar objeções do tipo por terra. Deus inspirou os autores bíblicos, e respeitou suas habilidades e limitações técnicas (linguísticas, retóricas, gramaticais, literárias, etc). Não seria ir contra a doutrina da inspiração bíblica negar que, hoje, um pregador possa valer-se de métodos que tornem sua pregação mais eficaz do ponto de vista da comunicação humana?

3. Não faça da pregação uma aula.

Por mais que a pregação ensine, ela não deve ser confundida com uma palestra. Há pregadores que expõe o texto bíblico com maestria, e no entanto, suas pregações são de pouco brilho e não levam as pessoas à ação. Podem se desculpar dizendo que seu objetivo é transmitir a verdade, independente das pessoas responderem ou não. Há muito de verdade nessa desculpa, no entanto, quando se fala em pregação, a ideia de um discurso que motiva à uma tomada de decisão é inerente. Sem isso, não há sermão, e sim palestra. Há, basicamente, duas formas de se evitar que o sermão seja dito como uma palestra.

A ênfase na aplicação prática da mensagem.

Idealmente, o pregador deve pensar na aplicação prática de sua mensagem já na escolha e apresentação do título do sermão. Um sermão intitulado “A Morte de Golias” tem cara de palestra, mas um sermão chamado “Cinco Lições Sobre a Morte de Golias”, tem cara de sermão. Afinal, o objetivo do sermão não é simplesmente ensinar os fatos a respeito da morte de Golias, mas apresentar o que aqueles fatos tem para ensinar hoje. Do título à conclusão, a ênfase na aplicação das verdades bíblicas na vida do ouvinte deve estar presente.



James Braga (1986), dedica um capítulo inteiro de seu manual de homilética para o tema da aplicação do sermão. “A aplicação”, afirma o autor, “é um dos elementos mais importantes do sermão. Mediante esse processo, apresentamos ao ouvinte as reivindicações da Palavra de Deus, a fim de obter sua reação favorável à mensagem. Quando adequadamente empregada, a aplicação mostra a pertinência dos ensinos da Bíblia à vida diária da pessoa, tornando aplicáveis a ela as mensagens da revelação cristã” (pg. 185). Mesmo um método como o narrativo, que permite prender a atenção dos ouvintes ao se contar belas e empolgantes históricas bíblicas, precisa da aplicação. É por meio da aplicação que o ouvinte é intimado a avalisar sua conduta atual a luz dos princípios extraídos da Palavra de Deus. Contar a história de Davi e Golias pode ser qualquer coisa, contar essa mesma história e demonstrar o que ela tem para ensinar hoje é pregação.

A paixão ao transmitir a mensagem.

Além da aplicação, o pregador precisa de outro elemento de vivacidade ao comunicar verdades da Palavra de Deus: fogo! Ou, se considerar essa palavra demasiadamente carismática, usemos essa: paixão! Nada é mais desinteressante que um pregador chato, cansado e sem vida no Púlpito. Koller identifica na dramatização de narrativas bíblicas uma forma de despertar o interesse da audiência.

Dramatize incidentes da Escritura, especialmente os obscuros ou pouco conhecidos. Pode-se fazer isso sem tornar-se teatral ou sensacional, ou satisfazendo o gosto popular da multidão. Sobre Jesus está registrado que “a grande multidão o ouvia com prazer” (Mc 12:37). As pessoas simplesmente ficavam fascinadas tanto pelo que Ele dizia como pela maneira vívida e pictórica como o dizia. “Sem parábolas nada lhes dizia” (Mt 13:34). Os ouvintes gostam do pitoresco (Koller, pg. 100).

Cabe citar aqui o grande valor do uso de boas ilustrações, que nas palavras de Braga (1986), servem como janelas que permitem enxergar a verdade que está sendo transmitida. Ao ilustrar uma verdade, narrar um acontecimento bíblico, ou aplicar os princípios teológicos expostos, vale a regra de ouro de falar com autoridade, confiança e vivacidade. Para isso é preciso fogo, paixão. O pregador é a pessoa sobre quem a comunidade colocou a responsabilidade de entrar nos tesouros da Palavra de Deus. Ao retornar do tesouro ele deve portar pedras de precioso valor, devendo entregá-las com amor e alegria para o deleite e enriquecimento do povo de Deus.

Zibordi (2007), diz que em I Tessalonicenses 1:5 é possível identificar os três elementos retóricos necessários ao sermão6: o logos, que é a palavra-conteúdo da mensagem; pathos, o fervor e a paixão daquele que comunica a mensagem, e ethos, uma referência ao caráter do próprio pregador, sua dignidade como pessoa e como mensageiro de Deus. Neste artigo buscamos, resumidamente, comentar alguns princípios que talvez sejam mais urgentes para o momento atual, considerando que estamos presenciando uma era marcada por polarizações. Se por um lado temos pregações empolgadas, mas sem conteúdo bíblico e teológico relevante, do outro encontramos pregações com muito conteúdo, mas com pouca preocupação em fomentar a práxis cristã. Ora valorizamos o método, ora valorizamos o encanto retórico, especialmente quando causa comoções. A virtude do pregador deve estar no meio, valorizando a técnica, o conteúdo e o poder da mensagem que foi incumbido de transmitir.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England, editor do Olhar Anglicano, e da Revista Báculo
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Notas Bibliográficas

1 O método é um dos enfoques da homilética, especialmente na homilética formal.

2 Há em Português obras excelentes sobre as técnicas da exposição. KOLLER, Charles W.: Pregação Expositiva sem Anotações. Como pregar sermões dinâmicos. Mundo Cristão, São Paulo, 1984. BRAGA. James: Como Preparar Mensagens Bíblicas, Ed. Vida, 1986. SOUZA. Itamir Neves de: Atos, Uma História Singular: 77 esboços expositivos. Descoberta, Curitiba, 19999. LOPES. Hernandes Dias: A Importância da Pregação Expositiva Para o Crescimento da Igreja. Candeia, São Paulo, 2004. Em Espanhol outras obras se destacam. OLFORD. Stephen F.: Guía de Predicación Expositiva. Broadman & Holman Publishers, Tennesse, 1998. RICHARD. Ramesh: La Predicación Expositiva: sete passos para la Predicación Bíblica. Faculdade Internacional de Educación Teológica, Buenos Aires, 2002.

3 DENVER. Mark: Nove Marcas de Uma Igreja Saudável. Editora Fiel, São Paulo, 2009.

4 VIOLA. Frank; BERNA. George: Cristianismo Pagão, Abba Press.

5 Ironicamente, esse fato já foi publicado no blog do próprio Viola, numa entrevista com o erudito do Novo Testamento, Witherington Bem III, que publicou obras como New Testamente Rhetoric: Na Introductory Guide to the Art of Persuasion in and of The New Testament (Cascade, 2009).

6 ZIBORDI. Ciro Sanches: Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar. CPAD, Rio de Janeiro, 2007.

segunda-feira

John Stott: Por que redescobrir o Antigo Evangelho?



John Stott 1

Por que redescobrir o Antigo Evangelho? 2

Não há dúvida de que o mundo evangélico de nossos dias encontra-se em um estado de perplexidade e flutuação. Em questões como na prática do evangelismo, no ensino sobre a santidade, na edificação da vida das igrejas locais, na maneira dos pastores tratarem com as almas e exercerem a disciplina há evidências de uma insatisfação generalizada com as coisas conforme elas estão, bem como de uma insatisfação geral acerca do caminho à frente.

“Há evidências de uma insatisfação generalizada com as coisas confome elas estão no mundo evangélico. Isso se deve ao fato que temos perdido de vista o Evangélho Bíblico”.

Esse é um fenômeno complexo, para o qual muitos fatores têm contribuído. Porém, se descermos até à raiz da questão, descobriremos que essas perplexidades, em última análise, devem-se ao fato que temos perdido de vista o evangelho bíblico. Sem o percebermos, durante os últimos cem anos temos trocado o evangelho por um substitutivo que, embora lhe seja semelhante quanto a determinados pormenores, trata-se de um produto inteiramente diferente. Daí surgem as nossas dificuldades; pois o produto substitutivo não corresponde às finalidades para os quais o evangelho autêntico do passado mostrou-se tão poderoso. 

O novo evangelho fracassa notavelmente em produzir reverência profunda, arrependimento profundo, humildade profunda, espírito de adoração e preocupação pela situação da Igreja. Por quê? Cumpre-nos sugerir que a razão jaz em seu próprio caráter e conteúdo. Não leva os homens a terem pensamentos centrados em Deus, temendo-o em seus corações, mesmo porque, primariamente, não é isso que o novo evangelho procura fazer. Uma das maneiras de declararmos a diferença entre o novo e o antigo evangelho é afirmar que o novo preocupa-se por demais em "ajudar" o homem — criando nele paz, consolo, felicidade e satisfação — e pouco demais em glorificar a Deus.

“Enquanto o alvo principal do 'antigo' Evangelho era ensinar os homens a adorarem a Deus, a preocupação do 'novo' é fazer os homens se sentirem melhor!”.

O antigo evangelho também prestava "ajuda" — mais do que o novo, na realidade. Mas fazia-o apenas incidentalmente — visto que sua preocupação primária sempre foi a de glorificar a Deus. Era sempre e essencialmente uma proclamação da soberania divina em misericórdia e juízo, uma convocação para os homens prostrarem-se e adorarem ao todo-poderoso Senhor de quem os homens dependem quanto a todo bem, tanto no âmbito da natureza quanto no âmbito da graça. Seu centro de referência era Deus, sem a mínima ambiguidade. Porém, no novo evangelho o centro de referência é o homem. Isso é a mesma coisa que dizer que o antigo evangelho era religioso de uma maneira que o novo evangelho não o é. Enquanto que o alvo principal do antigo era ensinar os homens a adorarem a Deus, a preocupação do novo parece limitar-se a fazer os homens sentirem-se melhor. O assunto abordado pelo antigo evangelho era Deus e os Seus caminhos com os homens; e o assunto abordado pelo novo é o homem e a ajuda que Deus lhe dá. Nisso há uma grande diferença. A perspectiva e a ênfase inteiras da pregação do evangelho se alteraram.

Dessa mudança de interesses originou-se a mudança de conteúdo, pois o novo evangelho na realidade reformulou a mensagem bíblica no suposto interesse da prestação de "ajuda" ao homem. De acordo com isso, não são mais pregadas verdades bíblicas tais como a incapacidade natural do homem em crer, a eleição divina e gratuita como a causa final da salvação, e a morte de Cristo especificamentepelas Suas ovelhas. Essas doutrinas, segundo o novo evangelho, não "ajudam" o homem; mas antes, contribuem para levar os pecadores ao desespero, sugerindo-lhes que eles não podem salvar-se, através de Cristo, pela sua própria capacidade. (Nem é considerada a possibilidade desse desespero ser salutar; antes, é aceito como ponto pacífico que o mesmo não é saudável, visto que destroçaria a nossa autoestima.) Sem importar exatamente como seja a questão, o resultado dessas omissões é que apenas uma parcela do evangelho bíblico está sendo pregada como se fosse a totalidade do mesmo; e, uma meia-verdade que se mascara como se fosse a verdade inteira torna-se uma mentira completa. Assim, apelamos aos homens como se eles todos tivessem a capacidade de receber a Cristo a qualquer momento.

“Apenas uma parcela do Evangelho Bíblico está sendo pregada como se fosse a totalidade do mesmo; e, uma meia-verdade que se mascara como se fosse a verdade inteira torna-se uma mentira completa”.

Falamos sobre a Sua obra remidora como se Ele nada mais tivesse feito do que morrer para capacitar-nos a nos salvarmos, mediante o nosso crer. Falamos sobre o amor de Deus como se isso não fosse mais do que a disposição geral de receber qualquer um que queira voltar-se para Deus e confiar nEle. E retratamos o Pai e o Filho não como soberanamente ativos em atrair a Eles os pecadores, mas como se Eles se mantivessem em quieta impotência, "à porta do nosso coração", esperando nossa permissão para entrar. É inegável que é dessa maneira que andamos pregando; e talvez seja assim que cremos. Porém, cumpre-nos dizer decisivamente que esse conjunto de meias-verdades distorcidas é algo totalmente diverso do evangelho bíblico. A Bíblia é contra nós, quando pregamos dessa maneira; e o fato que tal pregação tornou-se a prática quase padronizada entre nós serve apenas para demonstrar quão urgente se tornou que revisássemos toda a questão.

Redescobrir o antigo, autêntico e bíblico evangelho, e fazer nossa pregação e nossa prática ajustarem-se ao mesmo, talvez seja a nossa mais premente necessidade atual. E é precisamente nesse ponto que o tratado da Owen sobre a redenção nos pode ser útil.

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1 John Stott é um dos autores evangélicos mais influentes no evangelicalismo brasileiro, respeitado tanto por reformados quando por evangélicos. Teólogo e pastor anglicano, Stott faleceu em 2011.

2 Extraído do livro O Antigo Evangelho, um ensaio introdutório ao livro de John Owen, A Morte da Morte na Morte de Cristo, Editora Fiel, 1999.

3 “especificamente por suas ovelhas”; o autor se refere ao chamado terceiro ponto do Calvinismo, que ensina ter Cristo morrido apenas pelos eleitos para a Salvação. Os 39 Artigos de Religião também ensinam a “predestinação para a vida”, no entanto, afirmar a Expiação Limitada não é uma necessidade, devendo este ponto ficar a critério de cada fiel anglicano (Nota do Editor).

sexta-feira

5 Mitos Sobre a Igreja Anglicana

 
Esse ano (2017) comemoramos 500 Anos de Reforma Protestante. Tantos anos depois, e tanto contribuiu a Igreja Anglicana para o progresso da Teologia Reformada, sem que isso impedisse que alguns mitos sobre ela fossem sendo perpetuados no imaginário comum. Nesse texto abordaremos alguns deles.

quarta-feira

Quando conheci Jesus? Uma crônica sobre Deus que é Amor




Marcelo Lemos* 

Quando você conheceu Jesus? Essa pergunta me foi feita recentemente em um grupo do qual faço parte. Se compreendo a pergunta corretamente, o verbo conhecer aqui implica a fé salvífica. Então, não deixa de ser uma pergunta estranha de se fazer à alguém que nasceu em um lar cristão. Vou tentar respondê-la contando um pouco da minha jornada na fé. Por ter sido criado em uma família evangélica extremamente legalista, cresci com sentimentos de medo, frustração, culpa, e uma compreensão bem limitada sobre o real significado da Graça de Deus. Minha família e amigos acreditavam, por exemplo, que mesmo tendo ido à Igreja todos os dias, de Segunda a Domingo, por anos a fio, se não levantasse as mão na hora do Apelo, não teria o nome escrito no livro da vida. Achava essa ideia sem sentido, mas um dia tomei coragem, levantei as mãos, fiz a famosa oração do pecador e ganhei uma Bíblia de presente. Estava oficialmente salvo. E com uma Bíblia a mais na biblioteca.

Legalismo sem graça.


Conheci Jesus ao responder àquele apelo? Prefiro acreditar que não. Porque, na verdade, eu sempre acreditei em Jesus. Nasci em um lar católico romano, e fui batizado na Paróquia São Geraldo Magela, por Padre Léo. Com a conversão de meus pais ao evangelicalismo, acabei não fazendo a catequese da paróquia, mas fiz todas as escolas dominicais disponíveis na Igreja dos meus pais (pelo menos até que fossem proibidas pelas lideranças). Assim, eu sempre soube que Jesus era o único Caminho, Verdade e Vida. Outra razão para não acreditar naquela 'conversão' é que, com o tempo, descobri que tanto o Apelo quanto a Oração do Pecador são ritos sacramentais recém-criados na história da Igreja e popularizados por Charles Finney1. Assim, se milhões de cristãos foram salvos nos últimos dois mil anos sem esses dois rituais evangélicos, por que a regra do jogo teria que mudar justamente na minha vez? Não posso ser tão azarado.

A verdade que é não me atrevo a responder a pergunta. Contento-me na certeza de que Deus, primeiro, me conheceu com amor eletivo2. Usarei a pergunta, no entanto, para contar sobre como compreendi a Graça de Deus, e como ela impactou minha vida. Talvez o leitor não consiga mensurar o peso de uma religiosidade legalista, especialmente se não viveu a mesma experiência3. O que eu entendia sobre ser cristão tinha a ver com um catálogo4 muito extenso de proibições, algumas até engraçadas5. Por exemplo, a gente não podia usar jeans, roupas muito coloridas, nem óculos escuros. Eu sempre gostei de dormir com o mínimo de roupa possível, mas se Jesus voltasse a noite, diziam que eu ficaria para trás. Uma vez apanhei por fazer piada sobre Jesus voltando enquanto os crentes tomavam banho. Acho que fiz algum gracejo sobre Jesus deixando para trás algumas irmãs pelancudas pegas desprevenidas no banho... Não tinha graça, pra ser sincero.  Qualquer deslize podia te mandar para a geladeira por meses ou anos, o que significava ser cortado das atividades da Igreja. No jargão da época a gente dizia “ser colocado de banco”. Se o leitor suspeitar que quem mais sofria com tanto legalismo eram as mulheres estará coberto de razão.

Deus que é Amor


Mas tive o privilégio de encontrar aquela mensagem de Graça que incendiou o mundo nos dias da Reforma. Aconteceu meio por 'acaso', e se deu num momento bem deliciado da minha adolescência. Aos 16 anos já tomava minha dose diária de sertralina. Bem cedo compreendi a imagem sugerida pela noite escura da alma. Se algum pastor, pai ou mãe legalista estiver lendo essas linhas imploro que compreenda o seguinte: o legalismo mata.  Um legalista é um assassino, da Graça de Deus, de famílias, de pessoas e de reputações. O leitor não precisa acreditar no que digo, pode fazer melhor que isso lendo o primeiro capítulo da obra “É Proibido”, de Ricardo Gondim6. “A letra mata”, é o discurso dos mentirosos, e dos que tem medo de assumir seu próprio analfabetismo teológico. Por sorte eu sempre fui meio 'desviado', e como não podia assistir televisão, mergulhava no mundo da literatura. E foi fuçando um caixa de livros que alguém jogara fora que encontrei o livro “O Despertar da Graça”, de Charles Swindoll7. Ler aquelas páginas destruiu todo o legalismo que havia em mim, e me conduziu humilhado, mas confiante, aos pés da Cruz de Jesus.

Quando compreendi a mensagem da Graça, senti escamas caírem dos meus olhos. E não há nada melhor que o sabor da liberdade. Finalmente estava livre de todo jugo, de todo mandamento humano. Se tenho algum dever, alguma obrigação, alguma meta moral, apenas as Escrituras podem me dizer. Temos na Igreja Anglicana Reformada um documento histórico, redigido nos dias Reforma. Os 39 Artigos de Religião dizem que ninguém pode exigir nada dos fiéis a menos que a Bíblia assim ordene como mandamento de Deus. Por causa dessa mensagem libertadora, minha jornada teológica e espiritual tomou rumos que eu jamais teria imaginado. Claro, cometi erros e enfrentei oposições pelo caminho. “Sua graça me basta”. É por causa dessa mensagem que, ainda hoje, me sinto no dever de repelir todo assassino da Graça, mesmo aqueles que encontro entre meus irmãos herdeiros da Reforma. Sim, pois para minha decepção, acabei descobrindo que muito reformado é tão legalista quanto os pentecostais da minha infância e adolescência foram. Ah, os assassinos da Graça! Eles estão por todo lado! Às vezes, dentro de cada um de nós.

A Graça me fez compreender também que a natureza humana é tão corrompida pelo pecado, tão orgulhosa e cheia de auto justificação, que sempre pensará que pode merecer algo de Deus. Não é maravilhoso saber que Cristo já fez tudo por nós, e que a salvação não depende de obras ou de qualquer coisa que possamos fazer? É! Porém, nosso pecado, nosso orgulho, nossa autoconfiança, sempre tentarão nos convencer a encontra algo de bom em nós mesmos. O veneno do Éden nos cegou, a língua da serpente nos seduziu a pensar que precisamos merecer o céu.  Não sei exatamente quando conheci Jesus, mas sei quando descobri que o  legalismo é uma doença, e que a Graça é a cura.  Porque o legalismo conduz aos juízes do Sinédrio, mas a Graça nos conduz ao Crucificado, de quem jorrou vida em abundância.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England, editor do Olhar Anglicano, e da Revista Báculo
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Notas Bibliográficas

1 Mas a técnica não foi inventada por Finney. Seus primeiros registros na História datam do Século XVIII entre as Igrejas Metodistas Episcopais. Tradicionalmente, a arquitetura das Igrejas anglicanas – de onde surge o movimento metodista – chama a área à frente da mesa de comunhão de altar, e ocasionalmente, alguns pregadores metodistas convidavam os pecadores tocados pela pregação à irem àquele local. Mais tarde, o altar deu lugar ao ‘banco dos ansiosos’, onde aqueles que desejavam aprender mais sobre fé e arrependimento se sentavam, enquanto o restante da congregação seguia em oração. A técnica foi adotada pela maioria dos evangelísticas itinerantes, como Finney, e transformou-se num sacramento evangélico. Veja mais em “O Convite ao Altar e a Chamada Eficaz”, de Sam Hamstra Jr., Monergismo.

2 “Não me escolhestes vós a Mim, mas Eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” (S. João 15:16).

3 Apesar do pesado fardo que impõe, é muito difícil a pessoa tomar a decisão de abandonar o legalismo. André Santos, pastor, afirma que “Uma das coisas mais difíceis que existem na caminhada cristã, e tenho descoberto no decorrer dos anos, é deixar de ser legalista. Não é do dia para a noite que uma pessoa deixa para trás antigas formas de pensar e agir que lhes foram inculcadas durante anos” (O Legalismo e seus desdobramentos, Ultimato, acesso em 20/05/2018).

4 Recentemente tivemos acesso ao novo “RI”, regulamento interno, da Deus é Amor, e, para nossa surpresa, concessões começam a ser feitas. Por exemplo, na página 32 já não se proíbe o uso de pandeiro e bateria, desde que “se consulte a Sede Mundial para orientações”. Também já não se pune quem usa métodos anticoncepcionais, apenas é dito que “a Igreja aconselha os casais... que procurem os métodos naturais”, e enquanto antes se podia excluir uma irmã que cortasse o cabelo, a proibição agora vem em forma de orientação (pg. 39). Assistir televisão ainda é prescrito como pecado punível pelos pastores (pg. 40).

5 Apesar de uma maior permissividade quanto ao tamanho do cabelo, a denominação segue proibindo tratamentos capilares, e também o uso de perucas. Mas, se “houver perda total do cabelo”, a infeliz irmã é aconselhada a procurar a diretoria “que analisará o caso” (pg. 42).

6 GONDIM. Ricardo: “É Proibido. O que a Bíblia Permite e a Igreja Proíbe”. Mundo Cristão, São Paulo, 1998.

7 SWINDOLL. Charles R.: “O Despertar da Graça”. Editora Bom Pastor, São Paulo, 1004. Atualmente há uma edição da Mundo Cristão, de 2009.

sábado

Revista Báculo 2018!



“Graça e Paz! Este mês temos um tema de fundamental importância para a vida da Igreja: “a suficiência das Escrituras”. Essa é uma doutrina que precisa ser novamente avivada no coração do povo de Deus. Porque há muitas seduções pelo caminho, diversos atalhos e perigos a nossa volta.

O apóstolo S. Paulo fala sobre o perigo de sermos “levados em roda por todo vento de doutrina” (Ef 4:14). Em outro lugar alerta sobre aqueles que “vos inquietam e querem transtornar o Evangelho de Cristo” (Gal 1:7). A forma recomendada nas Escrituras para lidar com tais desafios encontramos em Judas 3: “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”.

Por isso estamos felizes em colocar em suas mãos a revista deste mês. Nossa matéria principal irá demonstrar o valor e a importância fundamental das Escrituras para a vida da Igreja, hoje e sempre. Além disso, você irá acompanhar as principais notícias da Igreja deste mês, além de conferir seções especiais como Café com o Bispo e na Escola dos Primeiros Cristãos.

E você sabia que nos escritos dos Pais da Igreja encontramos ensinamentos valiosos a respeito da primazia das Escrituras? Surpreenda-se este mês lendo um pouco mais a respeito desse assunto. Por fim, não deixe de nos escrever. Sua participação é valiosa para nós!


 


domingo

Pais da Igreja e Discipulado


Marcelo Lemos*

Quando o assunto é discipulado, os evangéli­cos poderiam aprender muito com os cris­tãos antigos. Com São João Crisóstomo, por exemplo, de quem herdamos uma série de cateque­ses batismais. Crisóstomo era um grande orador, e tinha apreço especial por preparar os novos conver­tidos para o Santo Batismo. Em seu tempo, pregou contra o paganismo, conclamando as pessoas à uma vida nos caminhos do Senhor. Ele acreditava que “basta um só homem para reformar todo um povo”.

A catequese dos primeiros cristãos foi tão bem-su­cedida devido a sua piedade e comprometimento. Os temas doutrinários eram importantes: logo após a era apostólica, deu-se início a era dos apologis­tas, marcada, segundo o historiador da Igreja Da­niel Rops pelo esforço de se explicar racionalmente a tradição cristã (História da Igreja, Volume I, pg. 276). A catequese era profunda e sólida, como po­demos ver pelas homilias iniciáticas de São Basí­lio Magno; por exemplo, sua homilia sobre as ori­gens do homem, que o autor mesmo classifica como “urgente e muito proveitosa para vossa iniciação” (Basílio de Cesárea, Patrística Vol. 12; Ed. Paulus).

Entretanto, a catequese não se resumia ao intelecto, abrangia a vida como um todo. A fé cristã não era apre­sentada como um mero novo conjunto de crenças, mas principalmente como um novo viver. O discipulado não tinha como objetivo somente a formação dou­trinária, era também um discipulado para a vida. Um discipulado no qual o novo convertido não era deixado a sós em seu dia a dia, antes, era acompanhado passo a passo, como um recém chegado à família de Deus.

Veja-se o exemplo de Orígenes, de quem Eusébio de Cesareia diz que começou a dirigir a escola de cate­quese de Alexandria quando tinha apenas 18 anos, e que alcançou grande renome, “pois, não os assis­tia apenas na prisão nem só quando interrogados e condenados, mas ainda depois da sentença final, com a maior audácia e expondo-se ao perigo, fica­va junto deles ao serem os santos mártires levados para a morte. Assim, quando ele avançava corajo­samente e com grande ousadia saudava os márti­res com um beijo, acontecia frequentemente que o povo pagão que os cercava se enfurecia e estava a ponto de se precipitar sobre ele, mas estendia-se a mão de Deus para socorrê-lo e fazer com que mi­lagrosamente escapasse” (CESAREIA, Eusébio de; História Eclesiástica; Patrística Vol. 15, Paulus).

É possível comparar o discipulado daqueles cristãos como a prática comum de hoje? Se para nós o disci­pulado é algo professoral, de cima pra baixo, naqueles dias era uma coisa orgânica, viva. Eram também pro­fessores de doutrina, teologia e moral, mas não limita­vam-se a passar aos discípulos um conjunto de enun­ciados. Ser um discipulador era um compromisso de viver junto, caminhar junto, sofrer junto, padecer e morrer junto se preciso. Em outras palavras, o disci­pulado não era uma função, mas um estilo de vida.

Quanto temos regredido em nosso discipula­do? No ensino teológico, ou pecamos por ex­cesso de racionalidade, ou pela atitude anti­-intelectual. Na prática da vida, raramente conseguimos visualizar a ligação entre nossos enor­mes livros dogmáticos e a vida do homem comum.

Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England (Igreja Anglicana Reformada do Brasil). Editor do blog ‘Olhar Anglicano’, e da revista ‘Báculo’ Também escreve para os blogues ‘Cristandade em Debate’ e ‘O Barco’. Artigo originalmente publicado na Revista Báculo.

quinta-feira

Por Que Abandonei a Escatologia da Novela 'Apocalipse'



Marcelo Lemos*

'Apocalipse', novela da Record TV (2018), não faz o mesmo sucesso que 'Dez Mandamentos' (Record TV, 2015). Ainda assim, o capítulo que retratou a teoria do arrebatamento secreto rendeu bons números no IBOPE. Mas, por que digo teoria do arrebatamento secreto? Porque, ao contrário do que boa parte do público possa acreditar, o arrebatamento secreto não é uma doutrina histórica da Igreja, tendo surgido no início do Século XX, ou seja, há pouco menos de 200 anos. Existe uma pretensão de datação mais antiga com base em duas alegações de antiguidade (BRAY, 1995; JEFFREY, 1995; apud MACPHERSON)1, mas não passa disso, uma tentativa de dar à teoria uma autoridade histórica até agora desconhecida.

Entretanto, como essa é uma teoria é extremamente popular, muitos sequer imaginam que a fé histórica da Igreja jamais falou de um arrebatamento secreto. Há uma reação imediata quando experimento comentar, com alguns familiares e amigos, a teoria por trás da novela ‘Apocalipse’. “Todas as Igrejas ensinam isso”. Ou, “sempre acreditei dessa forma, porque é exatamente isso que a Bíblia diz”. E é bem possível que a maioria das igrejas evangélicas a ensinem, mas não é verdade que todas façam isso. Também precisamos questionar se é verdade que a Bíblia lhe dá algum suporte.

Vamos olhar para o que ensina a teoria do arrebatamento secreto. Em termos práticos, essa teoria diz que Jesus Cristo virá mais duas vezes ao mundo. Hunt, renomado defensor do arrebatamento secreto, afirma isso textualmente em um artigo publicado no site da revista Chamada da Meia Noite. Ele afirma que, primeiro, Jesus irá voltar sem aviso, antes da Grande Tribulação, o que pegará a maior parte das pessoas de surpresa. Porém, o autor defende que esta não será a única vinda, pois “as Escrituras ensinam outra vinda de Cristo”, após a Grande Tribulação, “quando todos os sinais já estiverem sido cumpridos e todos souberem que Ele está voltado”. Sem rodeios, o autor declara que é impossível escapar “do fato de que duas vindas de Cristo ainda se darão no futuro: [...] as duas não podem ser o mesmo evento” (CHAMADA, 2012, grifos nossos)2.

Apesar das declarações de Hunt, geralmente um defensor do arrebatamento secreto não costuma falar abertamente uma Segunda e uma Terceira Vinda. Sua literatura irá usar apenas a expressão Segunda Vinda, por mais que isso signifique uma contradição interna na teoria. E, como veremos, o ensino sobre duas vindas de Cristo no futuro não pode ser encontrado nas Escrituras. Para resolver esse problema, a maioria dos seus defensores argumentam que, de fato, haverá somente uma Segunda Vinda, porém, dividida em duas fases. Essa explicação, que difere das afirmações de Hunt, pode ser encontrada na Teologia Sistemática de Thomas Paul Simmons, publicado no site Palavra Prudente. No capítulo intitulado ‘As Duas Fases da Vinda de Cristo’, autor não apenas defende uma Segunda Vinda em duas fases, como também admite que a Bíblia ensina apenas uma vinda futura, ao mesmo tempo que desdenha da óbvia contradição que isso produz em sua teoria escatológica.

Nossos oponentes escarnecem da ideia de um período de tempo entre as duas fases da vinda de Cristo. Dizem que ensinamos que haverá duas vindas em vez de uma. Podem chama-la o que quiserem. O Novo Testamento fala só de uma vinda, mas claramente revela que essa uma vinda consistirá de duas fases, separadas por um período de tempo. Preferimos crer o que ele ensina, desatendendo as perversões dele (PALAVRA PRUDENTE, acesso em 8 mai. 2018, grifos nossos)3.

A conclusão é que a teoria do arrebatamento secreto implica dizer que haverá duas vindas de Cristo. Como já vimos, tal conclusão é apontada também por alguns de seus próprios teóricos (CHAMADA, 2012), não sendo, como sugere Simmons, acusação de oponentes escarnecedores. Outro renomado teórico dessa interpretação chega a falar em uma “tríplice divisão natural” (DA SILVA, 1988, pg. 12, grifos nossos)4 da Segunda Vinda, uma para a Igreja, no Arrebatamento, outra para Israel, no término da Grande Tribulação, e uma terceira, contra Gogue e Magogue, no término do Milênio. Uma coisa é certa: compreender a teoria é muito trabalhoso, por mais que afirmem que ela seria claramente ensinada nas Escrituras. Seja como for, continuaremos nossa análise perguntando: e o que acontecerá nas eufemisticamente chamadas5 duas fases da “Segunda Vinda”?

Segundo a teoria do arrebatamento secreto, na primeira Segunda Vinda, Jesus não será visto pelo mundo, mas apenas pelos cristãos. Daí ser dito que ele será secreto, pois retirará do mundo os que receberam o novo nascimento, mas deixará para trás os incrédulos e os falsos crentes [PENTECOST, 2006]6. Somente a Igreja, portanto, ouvirá o som da trombeta enquanto é levada para encontrar com Jesus nas nuvens do céu. Livros, filmes, pregações e hinos baseados nessa ideia falam de aviões desgovernados, porque o piloto foi arrebatado, ou de pais, filhos e mães que, de repente, desaparecem do mundo. Foi justamente essa cena que concedeu à “Apocalipse” (Record TV, 2018), um momentâneo sucesso de audiência. Milhões de pessoas acreditam na teoria, ou pelo menos, a aceitam sem maiores questionamentos. Já na segunda Segunda Vinda, a teoria diz que Jesus voltará para colocar fim ao Reino do Anticristo, encerrando também a Grande Tribulação (que acreditam irá durará sete anos). 

O Novo Testamento, como admite até mesmo autores dessa escola (PALAVRA PRUDENTE, 2018), fala apenas de uma Segunda Vinda. “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o Juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (Hb 9:27,28, NVI, grifos nossos). Observe a ênfase do texto na singularidade de cada um dos eventos citados. Os homens estão destinados a morrerem uma única vez. Assim como Cristo foi sacrificado uma única vez. E voltará, pela segunda vez, para o seu povo. A primeira vinda corporal de Cristo foi na Encarnação7, por isso sua vinda futura é chamada segunda. Em nenhum lugar a Bíblia fala de uma terceira vinda. Portanto, falar que acontecerão duas vindas futuras de Cristo (CHAMADA, 2012), ou que Jesus voltará a prestação, em duas fases (PALAVRA PRUDENTE, 2018), não resiste ao crivo das Escrituras.

É verdade que a Igreja encontrará o Senhor nos ares. “Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com ele nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre” (I Tes 4:17, NVI). Este evento será instantâneo, numa fração de segundo, como descreve o mesmo apóstolo S. Paulo em I Cor. 15: 51,52: “Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados” (NVI). Mas em nenhum momento se diz que qualquer dessas coisas acontecerá secretamente.

De fato, a Segunda Vinda de Jesus será não apenas visível, mas estrondosa, “ao som da última trombeta, pois a trombeta soará” (I Cor 15:51,52). Essa trombeta também é citada em Tessalonicenses: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus” (I Tes 4:16, ACF 95). Alguns podem alegar que apenas os cristãos ouvirão a trombeta de Deus, mas quem diz isso são os teólogos dessa escola, não a Bíblia. Observe que apóstolo diz que a trombeta que anuncia tais coisas será a “última trombeta”. Buscando outras passagens das Escrituras encontramos que todas as nações do mundo presenciarão o toque dessa trombeta, e não que a Igreja secretamente a ouvirá.
  
Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos; mas todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados (I Coríntios 15:51-52, ACF 95, grifos nossos).

E tocou o sétimo anjo a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de Nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. E os vinte e quatro anciãos, que estão assentados em seus tronos diante de Deus prostraram-se sobre os seus rostos e adoraram a Deus, dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, e que hás de vir, que tomaste o teu grande poder, e reinaste. E iraram-se as nações, e veio a tua ira, e o tempo dos mortos, para que sejam julgados, e o tempo de dares o galardão aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra (Apocalipse 11:15-18, ACF 95, grifos nossos)


Também as mudanças operadas no cosmos por ocasião da Segunda Vinda desmentem a ideia de que haverá um arrebatamento secreto,
  
Mas o Dia do Senhor virá como o ladrão de noite, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade, aguardando e apressando-se para a vinda do Dia do Senhor, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça (I Pe 3: 10-13, ACF 95).

 A teoria é, no entanto, muito engenhosa e impressiona quem procura conhecê-la lendo seus manuais teológicos e ficções, o que pode explicar sua popularidade 8. Por muitos anos acreditei, preguei e ensinei a teoria do Arrebatamento Secreto sem a menor hesitação. Suas ficções são repletas de ação e suspense, e seus manuais teológicos enfileiram dezenas de referências. Acontece que, geralmente as referências bíblicas são isoladas e sem o trabalho de explica-las expositivamente. A maioria dos autores parece esperar que o leitor simplesmente confie que os textos citados realmente confirmem a teoria (veja nota9). Mas, por que as pessoas são convencidas? Talvez por algum tipo de apelo a autoridade, já que é preciso dedicar muito tempo e esforço apenas para compreender a lógica desse sistema interpretativo. Nestes casos, as pessoas tendem a achar mais prático e seguro confiar nos especialistas. Até porque, o sistema é tão confuso e complexo, que a maioria terá que consultar os manuais especializados de qualquer maneira. Então, para facilitar a vida daqueles que não possuem grande treinamento em teologia, algumas bíblias e manuais incluem infográficos detalhados explicando a complicada cronologia escatológica. O cenário perfeito.

Quando abandonei a teoria do arrebatamento secreto, tinha resolvido dedicar várias semanas ensinando sobre ela numa congregação pentecostal que pastoreava. Mandei imprimir cópias de uma apostila que havia escrito sobre o tema, e comparecia as aulas munido de dezenas de versículos, e de um colorido infográfico chamado ‘O Plano Divino Através dos Séculos’. Se algum aluno não conseguisse entender a teoria apenas com as leituras dos versículos, geralmente entendia, ou fingia entender, quando olhava para a cronologia ilustrada nas cores e ilustrações do infográfico. Geralmente funcionava muito bem. Menos com a irmã Marta. Numa de minhas palestras sobre o arrebatamento secreto, Marta foi a escolhida para ler algum versículo, que prontamente eu ia explicando.

- “Pastor”, ela pediu a palavra: “eu também acredito nisso, mas, honestamente?  Os versículos que estamos lendo não diz nada sobre ser secreto!”. Usei os argumentos canônicos da teoria, e ainda assim ela insistiu: “Verdade, pastor, também aprendi assim, e assim creio. Mas eu pensei que pelo menos um texto diria que é secreto. Me sinto confusa e frustrada por não entender”.

Igualmente frustrado, suspendi as aulas por algum tempo. Prometi aos alunos que estudaríamos outros assuntos, até que eu pudesse melhorar a qualidade do material. Estava envergonhado, mas achei melhor admitir que precisava rever as coisas e retomar o assunto com respostas mais apropriadas. Como a irmã Marta, descobri que o arrebatamento secreto que eu havia ensinado por tanto tempo, existia apenas nos manuais escatológicos de Dallas10, e no belo infográfico que eu mandara emoldurar. Quando retomei o assunto uns seis meses mais tarde, havia abandonado o Dispensacionalismo e suas estranhas teorias sobre a Segunda Vinda. Curiosamente, a irmã Marta preferiu continuar defendendo a teoria, mesmo sem conseguir prová-la.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England (Igreja Anglicana Reformada do Brasil). Editor do blog ‘Olhar Anglicano’, e da revista ‘Báculo’ Também escreve para os blogues ‘Cristandade em Debate’ e ‘O Barco’.
_________

Bibliografia:

1 MacPherson escreveu no artigo ‘Deceiving and Being Deceiving’, que os pré-tribulacionistas pretendem provar a antiguidade de sua interpretação recorrendo aos escritos do Rev. Morgan Edwards, de 1788, e também aos escritos medievais de Pseudo-Ephraem, 1000 anos antes. Nessa tentativa, explica o autor, “não apenas encobrem e distorcem” o que já se publicou sobre os dois autores, mas “também ocultaram e perverteram as próprias palavras” que os dois escreveram (Preterist Archive, consultado 12 abr. 2018, tradução nossa).

2 A revista Chamada da Meia Noite é uma das publicações mais populares em defesa do Dispensacionalismo e da teoria do Arrebatamento Secreto no Brasil. A citação foi extraída do artigo ‘Distinção Entre o Arrebatamento e a Segunda Vinda’, de autoria de David Hunt, publicado originalmente pela Revista em 2012, e reproduzida no site (CHAMADA, acesso em 09 mai. 2018).

3
O Palavra Prudente é um tradicional site de linha batista fundamentalista, criado pelo missionário norte-americano Calvin Gardner, falecido em 2016.

4 DA SILVA. Pedro Severino; Escatologia: Doutrina das últimas coisas. 1988. CPAD.

5 Eufemismo é quando uma palavra, locução ou acepção mais agradável é utilizada numa tentativa de suavizar ou minimizar o peso conotador de outra palavra, locução ou acepção considerada menos agradável (GOOGLE, Dicionário, acesso 9 mai. 2018). Mas, ainda que suavize a linguagem, a fim de causar impacto menor, não altera o conteúdo da afirmação. Daí a o termo ser usado como sinônimo de “abrandamento, adoçamento, atenuação, comedimento, mitigação, moderação e suavização” (NORMA CULTA, acesso 9 mai. 2018).

6 PENTECOST, J. Dwigth. Manual de Escatologia: Uma análise detalhada dos eventos futuros. 2006. Editora Vida.

7 “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (I Tim. 1:15, ARC 1995).

8 ‘Deixados Para Trás’ é um bom exemplo: a série de livros vendeu, só nos Estados Unidos, 70 milhões de exemplares, se manteve por 300 semanas na lista de best-sellers do ‘New York’, e ganhou uma versão para os cinemas.

9 Severino, por exemplo, na seção que seu livro dedica à explicar a teoria do Arrebatamento Secreto, apresenta quase 20 textos-prova, sem se dar ao trabalho de ensinar expositivamente nenhum deles. No entanto, dedica algumas páginas a explicar termos gregos que, em tese, justificariam a interpretação que ele adotou previamente (DA SILVA. Pedro Severino; Escatologia: Doutrina das últimas coisas, pgs. 12-16. 1988. CPAD). Gilberto, outro autor assembleiano, garante ao leitor que “conforme expomos acima, no arrebatamento, Jesus vem secretamente para a Igreja. Na Revelação ele vem publicamente para Israel e as demais nações”. No entanto, o que ele expõe é a teoria do arrebatamento secreto em si, e o que ela diz sobre os textos. Não há, de fato exposições dos textos apresentados, ainda que o autor faça um trabalho um pouco mais dedicado ao defender que a Igreja não passará pela Grande Tribulação, pg. 21ss (GILBERTO. Antônio, O Calendário da Profecia, pgs. 15-23. 1985.CPAD).

10 Dallas Theological Seminary, um dos principais polos de difusão da teoria. 

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Homilética: Evitando Sermões Para Boi Dormir

Marcelo Lemos* Um velho amigo, que conosco teve suas primeiras aulas de homilética, contou ter ficado responsável por ensinar a mat...

quinta-feira

Homilética: Evitando Sermões Para Boi Dormir


Marcelo Lemos*

Um velho amigo, que conosco teve suas primeiras aulas de homilética, contou ter ficado responsável por ensinar a matéria à uma classe de jovens em sua Igreja. Curioso, perguntou se poderíamos dar alguns conselhos aos seus jovens alunos. O texto a seguir reflete o teor de uma conversação ao telefone. A conversa, em tom bastante informal, se desenrolou a partir de um comentário a respeito de “sermões para boi dormir”. 

Segundo esse amigo, muitos sermões podem receber essa descrição com justiça. Pregadores monótonos, cansativos, sem vivacidade; ou, falastrões, comediantes, barulhentos em excesso. Se desejamos que nossa pregação seja relevante, viva e transformadora, precisamos compreender alguns conceitos importantes, e neste artigo falaremos a respeito de alguns. Para aqueles que desejam se aprofundar mais nos temas aqui abordados, recomendo pesquisar a bibliográfica citada no final.


1.  O Conteúdo é mais importante que o método.

A homilética, sendo uma matéria de teologia prática, nos coloca em contato com o método1. É preciso compreender e manejar corretamente os diferentes tipos de sermões como o narrativo, o expositivo, o tópico e o textual. Naturalmente, cada pessoa acaba se identificando mais com um desses métodos, praticamente adotando-o em seu trabalho corriqueiro. 

Vale ressaltar que nos últimos tempos temos visto no Brasil uma grande fomentação da pregação expositiva. Esse movimento é muito louvável, e deve o pregador inteirar-se desse método homilético de excelência2.

Por outro lado, parece que alguns pretendem que a pregação que não siga o método expositivo é de qualidade inferior, ou pior ainda, que apenas a Igreja que faz uso desse método é “realmente boa” (Denver, 2009)3. Sobre a importância do método na pregação segue um conselho aos novos pregadores: o conteúdo é mais importante que o método. A pregação expositiva é louvável e deve ser praticada, mas a Bíblia não estabelece um método canônico de pregação. Um sermão tópico pode ser maravilhosamente bíblico, e uma das provas disso é o fato de termos a disposição excelentes teologias sistemáticas, nas quais a doutrina cristã é transmitida na forma de tópicos. Além disso, acreditar que o método expositivo é garantia de fidelidade ao texto sagrado beira a ingenuidade, visto que, assim fosse, jamais encontraríamos teses exegéticas que falham em interpretar os cânones inspirados.

Não entenda mal. Esse conselho não é contra a pregação expositiva. Nem contra aquele pregador que decidiu pregar exclusivamente por esse método. Mas é preciso alertar para o legalismo religioso de alguns que parecem tentar impor regras sem autorização das Escrituras. 

2. Priorize o conteúdo sem se esquecer do método.

O conteúdo da pregação é o mais importante, contudo, é preciso também valorizar o método, e dominar suas técnicas. Como já visto, é legítimo que um pregador eleja apenas um método para o seu ministério, mas isso pode tornar seu trabalho um tanto previsível e monótono. Há outros pontos de análise. Pense no pregador que opte apenas por pregações tópicas, este jamais servirá à sua congregação uma explicação aprofundada de qualquer porção maior dos textos sagrados - com isso em mente, se for para escolher apenas um método de pregação que seja o expositivo. Contudo, uma vez que o método não define se a pregação vai ser bíblica ou não, nada impede que o pregador possa dominar e se valer das diversas abordagens.

Ao falarmos sobre o valor do método, e portanto da técnica, é preciso tomar cuidado com outra crítica; esta, oriunda daqueles que idealizam uma pregação ‘pura’, sem técnica e improvisada. É uma objeção comum entre gente iletrada, e certos círculos religiosos. Algumas tradições pentecostais são totalmente contra a preparação do sermão. Em uma delas, o pregador é obrigado a ficar em um "quartinho" separado, na companhia de outras pessoas, até que a palava lhe seja "revelada". Onde a Bíblia ensina tal coisa? Em lugar algum. Mas se alguém apontar o óbvio, a 'explicação' será que "a letra mata", e desculpas do tipo. Infelizmente, hoje encontramos pensamentos parecidos inclusive em livros com pretensões intelectuais e de grande alcance popular. Parece não faltar quem pretenda denunciar o sermão como um tipo de vaca sagrada “concebida no ventre da filosofia grega” (Viola e Barna)4.

O grande problema com essa classe de crítica mencionada acima – que já de início peca por seu anti-intelectualismo mal disfarçado - é o fato de que o Novo Testamento, apesar de inspirado por Deus, foi redigido de acordo com regras literárias e retóricas bem estabelecidas no mundo antigo - veja nota5. É o suficiente para jogar objeções do tipo por terra. Deus inspirou os autores bíblicos, e respeitou suas habilidades e limitações técnicas (linguísticas, retóricas, gramaticais, literárias, etc). Não seria ir contra a doutrina da inspiração bíblica negar que, hoje, um pregador possa valer-se de métodos que tornem sua pregação mais eficaz do ponto de vista da comunicação humana?

3. Não faça da pregação uma aula.

Por mais que a pregação ensine, ela não deve ser confundida com uma palestra. Há pregadores que expõe o texto bíblico com maestria, e no entanto, suas pregações são de pouco brilho e não levam as pessoas à ação. Podem se desculpar dizendo que seu objetivo é transmitir a verdade, independente das pessoas responderem ou não. Há muito de verdade nessa desculpa, no entanto, quando se fala em pregação, a ideia de um discurso que motiva à uma tomada de decisão é inerente. Sem isso, não há sermão, e sim palestra. Há, basicamente, duas formas de se evitar que o sermão seja dito como uma palestra.

A ênfase na aplicação prática da mensagem.

Idealmente, o pregador deve pensar na aplicação prática de sua mensagem já na escolha e apresentação do título do sermão. Um sermão intitulado “A Morte de Golias” tem cara de palestra, mas um sermão chamado “Cinco Lições Sobre a Morte de Golias”, tem cara de sermão. Afinal, o objetivo do sermão não é simplesmente ensinar os fatos a respeito da morte de Golias, mas apresentar o que aqueles fatos tem para ensinar hoje. Do título à conclusão, a ênfase na aplicação das verdades bíblicas na vida do ouvinte deve estar presente.



James Braga (1986), dedica um capítulo inteiro de seu manual de homilética para o tema da aplicação do sermão. “A aplicação”, afirma o autor, “é um dos elementos mais importantes do sermão. Mediante esse processo, apresentamos ao ouvinte as reivindicações da Palavra de Deus, a fim de obter sua reação favorável à mensagem. Quando adequadamente empregada, a aplicação mostra a pertinência dos ensinos da Bíblia à vida diária da pessoa, tornando aplicáveis a ela as mensagens da revelação cristã” (pg. 185). Mesmo um método como o narrativo, que permite prender a atenção dos ouvintes ao se contar belas e empolgantes históricas bíblicas, precisa da aplicação. É por meio da aplicação que o ouvinte é intimado a avalisar sua conduta atual a luz dos princípios extraídos da Palavra de Deus. Contar a história de Davi e Golias pode ser qualquer coisa, contar essa mesma história e demonstrar o que ela tem para ensinar hoje é pregação.

A paixão ao transmitir a mensagem.

Além da aplicação, o pregador precisa de outro elemento de vivacidade ao comunicar verdades da Palavra de Deus: fogo! Ou, se considerar essa palavra demasiadamente carismática, usemos essa: paixão! Nada é mais desinteressante que um pregador chato, cansado e sem vida no Púlpito. Koller identifica na dramatização de narrativas bíblicas uma forma de despertar o interesse da audiência.

Dramatize incidentes da Escritura, especialmente os obscuros ou pouco conhecidos. Pode-se fazer isso sem tornar-se teatral ou sensacional, ou satisfazendo o gosto popular da multidão. Sobre Jesus está registrado que “a grande multidão o ouvia com prazer” (Mc 12:37). As pessoas simplesmente ficavam fascinadas tanto pelo que Ele dizia como pela maneira vívida e pictórica como o dizia. “Sem parábolas nada lhes dizia” (Mt 13:34). Os ouvintes gostam do pitoresco (Koller, pg. 100).

Cabe citar aqui o grande valor do uso de boas ilustrações, que nas palavras de Braga (1986), servem como janelas que permitem enxergar a verdade que está sendo transmitida. Ao ilustrar uma verdade, narrar um acontecimento bíblico, ou aplicar os princípios teológicos expostos, vale a regra de ouro de falar com autoridade, confiança e vivacidade. Para isso é preciso fogo, paixão. O pregador é a pessoa sobre quem a comunidade colocou a responsabilidade de entrar nos tesouros da Palavra de Deus. Ao retornar do tesouro ele deve portar pedras de precioso valor, devendo entregá-las com amor e alegria para o deleite e enriquecimento do povo de Deus.

Zibordi (2007), diz que em I Tessalonicenses 1:5 é possível identificar os três elementos retóricos necessários ao sermão6: o logos, que é a palavra-conteúdo da mensagem; pathos, o fervor e a paixão daquele que comunica a mensagem, e ethos, uma referência ao caráter do próprio pregador, sua dignidade como pessoa e como mensageiro de Deus. Neste artigo buscamos, resumidamente, comentar alguns princípios que talvez sejam mais urgentes para o momento atual, considerando que estamos presenciando uma era marcada por polarizações. Se por um lado temos pregações empolgadas, mas sem conteúdo bíblico e teológico relevante, do outro encontramos pregações com muito conteúdo, mas com pouca preocupação em fomentar a práxis cristã. Ora valorizamos o método, ora valorizamos o encanto retórico, especialmente quando causa comoções. A virtude do pregador deve estar no meio, valorizando a técnica, o conteúdo e o poder da mensagem que foi incumbido de transmitir.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England, editor do Olhar Anglicano, e da Revista Báculo
______________

Notas Bibliográficas

1 O método é um dos enfoques da homilética, especialmente na homilética formal.

2 Há em Português obras excelentes sobre as técnicas da exposição. KOLLER, Charles W.: Pregação Expositiva sem Anotações. Como pregar sermões dinâmicos. Mundo Cristão, São Paulo, 1984. BRAGA. James: Como Preparar Mensagens Bíblicas, Ed. Vida, 1986. SOUZA. Itamir Neves de: Atos, Uma História Singular: 77 esboços expositivos. Descoberta, Curitiba, 19999. LOPES. Hernandes Dias: A Importância da Pregação Expositiva Para o Crescimento da Igreja. Candeia, São Paulo, 2004. Em Espanhol outras obras se destacam. OLFORD. Stephen F.: Guía de Predicación Expositiva. Broadman & Holman Publishers, Tennesse, 1998. RICHARD. Ramesh: La Predicación Expositiva: sete passos para la Predicación Bíblica. Faculdade Internacional de Educación Teológica, Buenos Aires, 2002.

3 DENVER. Mark: Nove Marcas de Uma Igreja Saudável. Editora Fiel, São Paulo, 2009.

4 VIOLA. Frank; BERNA. George: Cristianismo Pagão, Abba Press.

5 Ironicamente, esse fato já foi publicado no blog do próprio Viola, numa entrevista com o erudito do Novo Testamento, Witherington Bem III, que publicou obras como New Testamente Rhetoric: Na Introductory Guide to the Art of Persuasion in and of The New Testament (Cascade, 2009).

6 ZIBORDI. Ciro Sanches: Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar. CPAD, Rio de Janeiro, 2007.

segunda-feira

John Stott: Por que redescobrir o Antigo Evangelho?



John Stott 1

Por que redescobrir o Antigo Evangelho? 2

Não há dúvida de que o mundo evangélico de nossos dias encontra-se em um estado de perplexidade e flutuação. Em questões como na prática do evangelismo, no ensino sobre a santidade, na edificação da vida das igrejas locais, na maneira dos pastores tratarem com as almas e exercerem a disciplina há evidências de uma insatisfação generalizada com as coisas conforme elas estão, bem como de uma insatisfação geral acerca do caminho à frente.

“Há evidências de uma insatisfação generalizada com as coisas confome elas estão no mundo evangélico. Isso se deve ao fato que temos perdido de vista o Evangélho Bíblico”.

Esse é um fenômeno complexo, para o qual muitos fatores têm contribuído. Porém, se descermos até à raiz da questão, descobriremos que essas perplexidades, em última análise, devem-se ao fato que temos perdido de vista o evangelho bíblico. Sem o percebermos, durante os últimos cem anos temos trocado o evangelho por um substitutivo que, embora lhe seja semelhante quanto a determinados pormenores, trata-se de um produto inteiramente diferente. Daí surgem as nossas dificuldades; pois o produto substitutivo não corresponde às finalidades para os quais o evangelho autêntico do passado mostrou-se tão poderoso. 

O novo evangelho fracassa notavelmente em produzir reverência profunda, arrependimento profundo, humildade profunda, espírito de adoração e preocupação pela situação da Igreja. Por quê? Cumpre-nos sugerir que a razão jaz em seu próprio caráter e conteúdo. Não leva os homens a terem pensamentos centrados em Deus, temendo-o em seus corações, mesmo porque, primariamente, não é isso que o novo evangelho procura fazer. Uma das maneiras de declararmos a diferença entre o novo e o antigo evangelho é afirmar que o novo preocupa-se por demais em "ajudar" o homem — criando nele paz, consolo, felicidade e satisfação — e pouco demais em glorificar a Deus.

“Enquanto o alvo principal do 'antigo' Evangelho era ensinar os homens a adorarem a Deus, a preocupação do 'novo' é fazer os homens se sentirem melhor!”.

O antigo evangelho também prestava "ajuda" — mais do que o novo, na realidade. Mas fazia-o apenas incidentalmente — visto que sua preocupação primária sempre foi a de glorificar a Deus. Era sempre e essencialmente uma proclamação da soberania divina em misericórdia e juízo, uma convocação para os homens prostrarem-se e adorarem ao todo-poderoso Senhor de quem os homens dependem quanto a todo bem, tanto no âmbito da natureza quanto no âmbito da graça. Seu centro de referência era Deus, sem a mínima ambiguidade. Porém, no novo evangelho o centro de referência é o homem. Isso é a mesma coisa que dizer que o antigo evangelho era religioso de uma maneira que o novo evangelho não o é. Enquanto que o alvo principal do antigo era ensinar os homens a adorarem a Deus, a preocupação do novo parece limitar-se a fazer os homens sentirem-se melhor. O assunto abordado pelo antigo evangelho era Deus e os Seus caminhos com os homens; e o assunto abordado pelo novo é o homem e a ajuda que Deus lhe dá. Nisso há uma grande diferença. A perspectiva e a ênfase inteiras da pregação do evangelho se alteraram.

Dessa mudança de interesses originou-se a mudança de conteúdo, pois o novo evangelho na realidade reformulou a mensagem bíblica no suposto interesse da prestação de "ajuda" ao homem. De acordo com isso, não são mais pregadas verdades bíblicas tais como a incapacidade natural do homem em crer, a eleição divina e gratuita como a causa final da salvação, e a morte de Cristo especificamentepelas Suas ovelhas. Essas doutrinas, segundo o novo evangelho, não "ajudam" o homem; mas antes, contribuem para levar os pecadores ao desespero, sugerindo-lhes que eles não podem salvar-se, através de Cristo, pela sua própria capacidade. (Nem é considerada a possibilidade desse desespero ser salutar; antes, é aceito como ponto pacífico que o mesmo não é saudável, visto que destroçaria a nossa autoestima.) Sem importar exatamente como seja a questão, o resultado dessas omissões é que apenas uma parcela do evangelho bíblico está sendo pregada como se fosse a totalidade do mesmo; e, uma meia-verdade que se mascara como se fosse a verdade inteira torna-se uma mentira completa. Assim, apelamos aos homens como se eles todos tivessem a capacidade de receber a Cristo a qualquer momento.

“Apenas uma parcela do Evangelho Bíblico está sendo pregada como se fosse a totalidade do mesmo; e, uma meia-verdade que se mascara como se fosse a verdade inteira torna-se uma mentira completa”.

Falamos sobre a Sua obra remidora como se Ele nada mais tivesse feito do que morrer para capacitar-nos a nos salvarmos, mediante o nosso crer. Falamos sobre o amor de Deus como se isso não fosse mais do que a disposição geral de receber qualquer um que queira voltar-se para Deus e confiar nEle. E retratamos o Pai e o Filho não como soberanamente ativos em atrair a Eles os pecadores, mas como se Eles se mantivessem em quieta impotência, "à porta do nosso coração", esperando nossa permissão para entrar. É inegável que é dessa maneira que andamos pregando; e talvez seja assim que cremos. Porém, cumpre-nos dizer decisivamente que esse conjunto de meias-verdades distorcidas é algo totalmente diverso do evangelho bíblico. A Bíblia é contra nós, quando pregamos dessa maneira; e o fato que tal pregação tornou-se a prática quase padronizada entre nós serve apenas para demonstrar quão urgente se tornou que revisássemos toda a questão.

Redescobrir o antigo, autêntico e bíblico evangelho, e fazer nossa pregação e nossa prática ajustarem-se ao mesmo, talvez seja a nossa mais premente necessidade atual. E é precisamente nesse ponto que o tratado da Owen sobre a redenção nos pode ser útil.

_______________

1 John Stott é um dos autores evangélicos mais influentes no evangelicalismo brasileiro, respeitado tanto por reformados quando por evangélicos. Teólogo e pastor anglicano, Stott faleceu em 2011.

2 Extraído do livro O Antigo Evangelho, um ensaio introdutório ao livro de John Owen, A Morte da Morte na Morte de Cristo, Editora Fiel, 1999.

3 “especificamente por suas ovelhas”; o autor se refere ao chamado terceiro ponto do Calvinismo, que ensina ter Cristo morrido apenas pelos eleitos para a Salvação. Os 39 Artigos de Religião também ensinam a “predestinação para a vida”, no entanto, afirmar a Expiação Limitada não é uma necessidade, devendo este ponto ficar a critério de cada fiel anglicano (Nota do Editor).

sexta-feira

5 Mitos Sobre a Igreja Anglicana

 
Esse ano (2017) comemoramos 500 Anos de Reforma Protestante. Tantos anos depois, e tanto contribuiu a Igreja Anglicana para o progresso da Teologia Reformada, sem que isso impedisse que alguns mitos sobre ela fossem sendo perpetuados no imaginário comum. Nesse texto abordaremos alguns deles.

quarta-feira

Quando conheci Jesus? Uma crônica sobre Deus que é Amor




Marcelo Lemos* 

Quando você conheceu Jesus? Essa pergunta me foi feita recentemente em um grupo do qual faço parte. Se compreendo a pergunta corretamente, o verbo conhecer aqui implica a fé salvífica. Então, não deixa de ser uma pergunta estranha de se fazer à alguém que nasceu em um lar cristão. Vou tentar respondê-la contando um pouco da minha jornada na fé. Por ter sido criado em uma família evangélica extremamente legalista, cresci com sentimentos de medo, frustração, culpa, e uma compreensão bem limitada sobre o real significado da Graça de Deus. Minha família e amigos acreditavam, por exemplo, que mesmo tendo ido à Igreja todos os dias, de Segunda a Domingo, por anos a fio, se não levantasse as mão na hora do Apelo, não teria o nome escrito no livro da vida. Achava essa ideia sem sentido, mas um dia tomei coragem, levantei as mãos, fiz a famosa oração do pecador e ganhei uma Bíblia de presente. Estava oficialmente salvo. E com uma Bíblia a mais na biblioteca.

Legalismo sem graça.


Conheci Jesus ao responder àquele apelo? Prefiro acreditar que não. Porque, na verdade, eu sempre acreditei em Jesus. Nasci em um lar católico romano, e fui batizado na Paróquia São Geraldo Magela, por Padre Léo. Com a conversão de meus pais ao evangelicalismo, acabei não fazendo a catequese da paróquia, mas fiz todas as escolas dominicais disponíveis na Igreja dos meus pais (pelo menos até que fossem proibidas pelas lideranças). Assim, eu sempre soube que Jesus era o único Caminho, Verdade e Vida. Outra razão para não acreditar naquela 'conversão' é que, com o tempo, descobri que tanto o Apelo quanto a Oração do Pecador são ritos sacramentais recém-criados na história da Igreja e popularizados por Charles Finney1. Assim, se milhões de cristãos foram salvos nos últimos dois mil anos sem esses dois rituais evangélicos, por que a regra do jogo teria que mudar justamente na minha vez? Não posso ser tão azarado.

A verdade que é não me atrevo a responder a pergunta. Contento-me na certeza de que Deus, primeiro, me conheceu com amor eletivo2. Usarei a pergunta, no entanto, para contar sobre como compreendi a Graça de Deus, e como ela impactou minha vida. Talvez o leitor não consiga mensurar o peso de uma religiosidade legalista, especialmente se não viveu a mesma experiência3. O que eu entendia sobre ser cristão tinha a ver com um catálogo4 muito extenso de proibições, algumas até engraçadas5. Por exemplo, a gente não podia usar jeans, roupas muito coloridas, nem óculos escuros. Eu sempre gostei de dormir com o mínimo de roupa possível, mas se Jesus voltasse a noite, diziam que eu ficaria para trás. Uma vez apanhei por fazer piada sobre Jesus voltando enquanto os crentes tomavam banho. Acho que fiz algum gracejo sobre Jesus deixando para trás algumas irmãs pelancudas pegas desprevenidas no banho... Não tinha graça, pra ser sincero.  Qualquer deslize podia te mandar para a geladeira por meses ou anos, o que significava ser cortado das atividades da Igreja. No jargão da época a gente dizia “ser colocado de banco”. Se o leitor suspeitar que quem mais sofria com tanto legalismo eram as mulheres estará coberto de razão.

Deus que é Amor


Mas tive o privilégio de encontrar aquela mensagem de Graça que incendiou o mundo nos dias da Reforma. Aconteceu meio por 'acaso', e se deu num momento bem deliciado da minha adolescência. Aos 16 anos já tomava minha dose diária de sertralina. Bem cedo compreendi a imagem sugerida pela noite escura da alma. Se algum pastor, pai ou mãe legalista estiver lendo essas linhas imploro que compreenda o seguinte: o legalismo mata.  Um legalista é um assassino, da Graça de Deus, de famílias, de pessoas e de reputações. O leitor não precisa acreditar no que digo, pode fazer melhor que isso lendo o primeiro capítulo da obra “É Proibido”, de Ricardo Gondim6. “A letra mata”, é o discurso dos mentirosos, e dos que tem medo de assumir seu próprio analfabetismo teológico. Por sorte eu sempre fui meio 'desviado', e como não podia assistir televisão, mergulhava no mundo da literatura. E foi fuçando um caixa de livros que alguém jogara fora que encontrei o livro “O Despertar da Graça”, de Charles Swindoll7. Ler aquelas páginas destruiu todo o legalismo que havia em mim, e me conduziu humilhado, mas confiante, aos pés da Cruz de Jesus.

Quando compreendi a mensagem da Graça, senti escamas caírem dos meus olhos. E não há nada melhor que o sabor da liberdade. Finalmente estava livre de todo jugo, de todo mandamento humano. Se tenho algum dever, alguma obrigação, alguma meta moral, apenas as Escrituras podem me dizer. Temos na Igreja Anglicana Reformada um documento histórico, redigido nos dias Reforma. Os 39 Artigos de Religião dizem que ninguém pode exigir nada dos fiéis a menos que a Bíblia assim ordene como mandamento de Deus. Por causa dessa mensagem libertadora, minha jornada teológica e espiritual tomou rumos que eu jamais teria imaginado. Claro, cometi erros e enfrentei oposições pelo caminho. “Sua graça me basta”. É por causa dessa mensagem que, ainda hoje, me sinto no dever de repelir todo assassino da Graça, mesmo aqueles que encontro entre meus irmãos herdeiros da Reforma. Sim, pois para minha decepção, acabei descobrindo que muito reformado é tão legalista quanto os pentecostais da minha infância e adolescência foram. Ah, os assassinos da Graça! Eles estão por todo lado! Às vezes, dentro de cada um de nós.

A Graça me fez compreender também que a natureza humana é tão corrompida pelo pecado, tão orgulhosa e cheia de auto justificação, que sempre pensará que pode merecer algo de Deus. Não é maravilhoso saber que Cristo já fez tudo por nós, e que a salvação não depende de obras ou de qualquer coisa que possamos fazer? É! Porém, nosso pecado, nosso orgulho, nossa autoconfiança, sempre tentarão nos convencer a encontra algo de bom em nós mesmos. O veneno do Éden nos cegou, a língua da serpente nos seduziu a pensar que precisamos merecer o céu.  Não sei exatamente quando conheci Jesus, mas sei quando descobri que o  legalismo é uma doença, e que a Graça é a cura.  Porque o legalismo conduz aos juízes do Sinédrio, mas a Graça nos conduz ao Crucificado, de quem jorrou vida em abundância.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England, editor do Olhar Anglicano, e da Revista Báculo
______________

Notas Bibliográficas

1 Mas a técnica não foi inventada por Finney. Seus primeiros registros na História datam do Século XVIII entre as Igrejas Metodistas Episcopais. Tradicionalmente, a arquitetura das Igrejas anglicanas – de onde surge o movimento metodista – chama a área à frente da mesa de comunhão de altar, e ocasionalmente, alguns pregadores metodistas convidavam os pecadores tocados pela pregação à irem àquele local. Mais tarde, o altar deu lugar ao ‘banco dos ansiosos’, onde aqueles que desejavam aprender mais sobre fé e arrependimento se sentavam, enquanto o restante da congregação seguia em oração. A técnica foi adotada pela maioria dos evangelísticas itinerantes, como Finney, e transformou-se num sacramento evangélico. Veja mais em “O Convite ao Altar e a Chamada Eficaz”, de Sam Hamstra Jr., Monergismo.

2 “Não me escolhestes vós a Mim, mas Eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” (S. João 15:16).

3 Apesar do pesado fardo que impõe, é muito difícil a pessoa tomar a decisão de abandonar o legalismo. André Santos, pastor, afirma que “Uma das coisas mais difíceis que existem na caminhada cristã, e tenho descoberto no decorrer dos anos, é deixar de ser legalista. Não é do dia para a noite que uma pessoa deixa para trás antigas formas de pensar e agir que lhes foram inculcadas durante anos” (O Legalismo e seus desdobramentos, Ultimato, acesso em 20/05/2018).

4 Recentemente tivemos acesso ao novo “RI”, regulamento interno, da Deus é Amor, e, para nossa surpresa, concessões começam a ser feitas. Por exemplo, na página 32 já não se proíbe o uso de pandeiro e bateria, desde que “se consulte a Sede Mundial para orientações”. Também já não se pune quem usa métodos anticoncepcionais, apenas é dito que “a Igreja aconselha os casais... que procurem os métodos naturais”, e enquanto antes se podia excluir uma irmã que cortasse o cabelo, a proibição agora vem em forma de orientação (pg. 39). Assistir televisão ainda é prescrito como pecado punível pelos pastores (pg. 40).

5 Apesar de uma maior permissividade quanto ao tamanho do cabelo, a denominação segue proibindo tratamentos capilares, e também o uso de perucas. Mas, se “houver perda total do cabelo”, a infeliz irmã é aconselhada a procurar a diretoria “que analisará o caso” (pg. 42).

6 GONDIM. Ricardo: “É Proibido. O que a Bíblia Permite e a Igreja Proíbe”. Mundo Cristão, São Paulo, 1998.

7 SWINDOLL. Charles R.: “O Despertar da Graça”. Editora Bom Pastor, São Paulo, 1004. Atualmente há uma edição da Mundo Cristão, de 2009.

sábado

Revista Báculo 2018!



“Graça e Paz! Este mês temos um tema de fundamental importância para a vida da Igreja: “a suficiência das Escrituras”. Essa é uma doutrina que precisa ser novamente avivada no coração do povo de Deus. Porque há muitas seduções pelo caminho, diversos atalhos e perigos a nossa volta.

O apóstolo S. Paulo fala sobre o perigo de sermos “levados em roda por todo vento de doutrina” (Ef 4:14). Em outro lugar alerta sobre aqueles que “vos inquietam e querem transtornar o Evangelho de Cristo” (Gal 1:7). A forma recomendada nas Escrituras para lidar com tais desafios encontramos em Judas 3: “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”.

Por isso estamos felizes em colocar em suas mãos a revista deste mês. Nossa matéria principal irá demonstrar o valor e a importância fundamental das Escrituras para a vida da Igreja, hoje e sempre. Além disso, você irá acompanhar as principais notícias da Igreja deste mês, além de conferir seções especiais como Café com o Bispo e na Escola dos Primeiros Cristãos.

E você sabia que nos escritos dos Pais da Igreja encontramos ensinamentos valiosos a respeito da primazia das Escrituras? Surpreenda-se este mês lendo um pouco mais a respeito desse assunto. Por fim, não deixe de nos escrever. Sua participação é valiosa para nós!


 


domingo

Pais da Igreja e Discipulado


Marcelo Lemos*

Quando o assunto é discipulado, os evangéli­cos poderiam aprender muito com os cris­tãos antigos. Com São João Crisóstomo, por exemplo, de quem herdamos uma série de cateque­ses batismais. Crisóstomo era um grande orador, e tinha apreço especial por preparar os novos conver­tidos para o Santo Batismo. Em seu tempo, pregou contra o paganismo, conclamando as pessoas à uma vida nos caminhos do Senhor. Ele acreditava que “basta um só homem para reformar todo um povo”.

A catequese dos primeiros cristãos foi tão bem-su­cedida devido a sua piedade e comprometimento. Os temas doutrinários eram importantes: logo após a era apostólica, deu-se início a era dos apologis­tas, marcada, segundo o historiador da Igreja Da­niel Rops pelo esforço de se explicar racionalmente a tradição cristã (História da Igreja, Volume I, pg. 276). A catequese era profunda e sólida, como po­demos ver pelas homilias iniciáticas de São Basí­lio Magno; por exemplo, sua homilia sobre as ori­gens do homem, que o autor mesmo classifica como “urgente e muito proveitosa para vossa iniciação” (Basílio de Cesárea, Patrística Vol. 12; Ed. Paulus).

Entretanto, a catequese não se resumia ao intelecto, abrangia a vida como um todo. A fé cristã não era apre­sentada como um mero novo conjunto de crenças, mas principalmente como um novo viver. O discipulado não tinha como objetivo somente a formação dou­trinária, era também um discipulado para a vida. Um discipulado no qual o novo convertido não era deixado a sós em seu dia a dia, antes, era acompanhado passo a passo, como um recém chegado à família de Deus.

Veja-se o exemplo de Orígenes, de quem Eusébio de Cesareia diz que começou a dirigir a escola de cate­quese de Alexandria quando tinha apenas 18 anos, e que alcançou grande renome, “pois, não os assis­tia apenas na prisão nem só quando interrogados e condenados, mas ainda depois da sentença final, com a maior audácia e expondo-se ao perigo, fica­va junto deles ao serem os santos mártires levados para a morte. Assim, quando ele avançava corajo­samente e com grande ousadia saudava os márti­res com um beijo, acontecia frequentemente que o povo pagão que os cercava se enfurecia e estava a ponto de se precipitar sobre ele, mas estendia-se a mão de Deus para socorrê-lo e fazer com que mi­lagrosamente escapasse” (CESAREIA, Eusébio de; História Eclesiástica; Patrística Vol. 15, Paulus).

É possível comparar o discipulado daqueles cristãos como a prática comum de hoje? Se para nós o disci­pulado é algo professoral, de cima pra baixo, naqueles dias era uma coisa orgânica, viva. Eram também pro­fessores de doutrina, teologia e moral, mas não limita­vam-se a passar aos discípulos um conjunto de enun­ciados. Ser um discipulador era um compromisso de viver junto, caminhar junto, sofrer junto, padecer e morrer junto se preciso. Em outras palavras, o disci­pulado não era uma função, mas um estilo de vida.

Quanto temos regredido em nosso discipula­do? No ensino teológico, ou pecamos por ex­cesso de racionalidade, ou pela atitude anti­-intelectual. Na prática da vida, raramente conseguimos visualizar a ligação entre nossos enor­mes livros dogmáticos e a vida do homem comum.

Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England (Igreja Anglicana Reformada do Brasil). Editor do blog ‘Olhar Anglicano’, e da revista ‘Báculo’ Também escreve para os blogues ‘Cristandade em Debate’ e ‘O Barco’. Artigo originalmente publicado na Revista Báculo.

quinta-feira

Por Que Abandonei a Escatologia da Novela 'Apocalipse'



Marcelo Lemos*

'Apocalipse', novela da Record TV (2018), não faz o mesmo sucesso que 'Dez Mandamentos' (Record TV, 2015). Ainda assim, o capítulo que retratou a teoria do arrebatamento secreto rendeu bons números no IBOPE. Mas, por que digo teoria do arrebatamento secreto? Porque, ao contrário do que boa parte do público possa acreditar, o arrebatamento secreto não é uma doutrina histórica da Igreja, tendo surgido no início do Século XX, ou seja, há pouco menos de 200 anos. Existe uma pretensão de datação mais antiga com base em duas alegações de antiguidade (BRAY, 1995; JEFFREY, 1995; apud MACPHERSON)1, mas não passa disso, uma tentativa de dar à teoria uma autoridade histórica até agora desconhecida.

Entretanto, como essa é uma teoria é extremamente popular, muitos sequer imaginam que a fé histórica da Igreja jamais falou de um arrebatamento secreto. Há uma reação imediata quando experimento comentar, com alguns familiares e amigos, a teoria por trás da novela ‘Apocalipse’. “Todas as Igrejas ensinam isso”. Ou, “sempre acreditei dessa forma, porque é exatamente isso que a Bíblia diz”. E é bem possível que a maioria das igrejas evangélicas a ensinem, mas não é verdade que todas façam isso. Também precisamos questionar se é verdade que a Bíblia lhe dá algum suporte.

Vamos olhar para o que ensina a teoria do arrebatamento secreto. Em termos práticos, essa teoria diz que Jesus Cristo virá mais duas vezes ao mundo. Hunt, renomado defensor do arrebatamento secreto, afirma isso textualmente em um artigo publicado no site da revista Chamada da Meia Noite. Ele afirma que, primeiro, Jesus irá voltar sem aviso, antes da Grande Tribulação, o que pegará a maior parte das pessoas de surpresa. Porém, o autor defende que esta não será a única vinda, pois “as Escrituras ensinam outra vinda de Cristo”, após a Grande Tribulação, “quando todos os sinais já estiverem sido cumpridos e todos souberem que Ele está voltado”. Sem rodeios, o autor declara que é impossível escapar “do fato de que duas vindas de Cristo ainda se darão no futuro: [...] as duas não podem ser o mesmo evento” (CHAMADA, 2012, grifos nossos)2.

Apesar das declarações de Hunt, geralmente um defensor do arrebatamento secreto não costuma falar abertamente uma Segunda e uma Terceira Vinda. Sua literatura irá usar apenas a expressão Segunda Vinda, por mais que isso signifique uma contradição interna na teoria. E, como veremos, o ensino sobre duas vindas de Cristo no futuro não pode ser encontrado nas Escrituras. Para resolver esse problema, a maioria dos seus defensores argumentam que, de fato, haverá somente uma Segunda Vinda, porém, dividida em duas fases. Essa explicação, que difere das afirmações de Hunt, pode ser encontrada na Teologia Sistemática de Thomas Paul Simmons, publicado no site Palavra Prudente. No capítulo intitulado ‘As Duas Fases da Vinda de Cristo’, autor não apenas defende uma Segunda Vinda em duas fases, como também admite que a Bíblia ensina apenas uma vinda futura, ao mesmo tempo que desdenha da óbvia contradição que isso produz em sua teoria escatológica.

Nossos oponentes escarnecem da ideia de um período de tempo entre as duas fases da vinda de Cristo. Dizem que ensinamos que haverá duas vindas em vez de uma. Podem chama-la o que quiserem. O Novo Testamento fala só de uma vinda, mas claramente revela que essa uma vinda consistirá de duas fases, separadas por um período de tempo. Preferimos crer o que ele ensina, desatendendo as perversões dele (PALAVRA PRUDENTE, acesso em 8 mai. 2018, grifos nossos)3.

A conclusão é que a teoria do arrebatamento secreto implica dizer que haverá duas vindas de Cristo. Como já vimos, tal conclusão é apontada também por alguns de seus próprios teóricos (CHAMADA, 2012), não sendo, como sugere Simmons, acusação de oponentes escarnecedores. Outro renomado teórico dessa interpretação chega a falar em uma “tríplice divisão natural” (DA SILVA, 1988, pg. 12, grifos nossos)4 da Segunda Vinda, uma para a Igreja, no Arrebatamento, outra para Israel, no término da Grande Tribulação, e uma terceira, contra Gogue e Magogue, no término do Milênio. Uma coisa é certa: compreender a teoria é muito trabalhoso, por mais que afirmem que ela seria claramente ensinada nas Escrituras. Seja como for, continuaremos nossa análise perguntando: e o que acontecerá nas eufemisticamente chamadas5 duas fases da “Segunda Vinda”?

Segundo a teoria do arrebatamento secreto, na primeira Segunda Vinda, Jesus não será visto pelo mundo, mas apenas pelos cristãos. Daí ser dito que ele será secreto, pois retirará do mundo os que receberam o novo nascimento, mas deixará para trás os incrédulos e os falsos crentes [PENTECOST, 2006]6. Somente a Igreja, portanto, ouvirá o som da trombeta enquanto é levada para encontrar com Jesus nas nuvens do céu. Livros, filmes, pregações e hinos baseados nessa ideia falam de aviões desgovernados, porque o piloto foi arrebatado, ou de pais, filhos e mães que, de repente, desaparecem do mundo. Foi justamente essa cena que concedeu à “Apocalipse” (Record TV, 2018), um momentâneo sucesso de audiência. Milhões de pessoas acreditam na teoria, ou pelo menos, a aceitam sem maiores questionamentos. Já na segunda Segunda Vinda, a teoria diz que Jesus voltará para colocar fim ao Reino do Anticristo, encerrando também a Grande Tribulação (que acreditam irá durará sete anos). 

O Novo Testamento, como admite até mesmo autores dessa escola (PALAVRA PRUDENTE, 2018), fala apenas de uma Segunda Vinda. “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o Juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (Hb 9:27,28, NVI, grifos nossos). Observe a ênfase do texto na singularidade de cada um dos eventos citados. Os homens estão destinados a morrerem uma única vez. Assim como Cristo foi sacrificado uma única vez. E voltará, pela segunda vez, para o seu povo. A primeira vinda corporal de Cristo foi na Encarnação7, por isso sua vinda futura é chamada segunda. Em nenhum lugar a Bíblia fala de uma terceira vinda. Portanto, falar que acontecerão duas vindas futuras de Cristo (CHAMADA, 2012), ou que Jesus voltará a prestação, em duas fases (PALAVRA PRUDENTE, 2018), não resiste ao crivo das Escrituras.

É verdade que a Igreja encontrará o Senhor nos ares. “Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com ele nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre” (I Tes 4:17, NVI). Este evento será instantâneo, numa fração de segundo, como descreve o mesmo apóstolo S. Paulo em I Cor. 15: 51,52: “Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados” (NVI). Mas em nenhum momento se diz que qualquer dessas coisas acontecerá secretamente.

De fato, a Segunda Vinda de Jesus será não apenas visível, mas estrondosa, “ao som da última trombeta, pois a trombeta soará” (I Cor 15:51,52). Essa trombeta também é citada em Tessalonicenses: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus” (I Tes 4:16, ACF 95). Alguns podem alegar que apenas os cristãos ouvirão a trombeta de Deus, mas quem diz isso são os teólogos dessa escola, não a Bíblia. Observe que apóstolo diz que a trombeta que anuncia tais coisas será a “última trombeta”. Buscando outras passagens das Escrituras encontramos que todas as nações do mundo presenciarão o toque dessa trombeta, e não que a Igreja secretamente a ouvirá.
  
Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos; mas todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados (I Coríntios 15:51-52, ACF 95, grifos nossos).

E tocou o sétimo anjo a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de Nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. E os vinte e quatro anciãos, que estão assentados em seus tronos diante de Deus prostraram-se sobre os seus rostos e adoraram a Deus, dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, e que hás de vir, que tomaste o teu grande poder, e reinaste. E iraram-se as nações, e veio a tua ira, e o tempo dos mortos, para que sejam julgados, e o tempo de dares o galardão aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra (Apocalipse 11:15-18, ACF 95, grifos nossos)


Também as mudanças operadas no cosmos por ocasião da Segunda Vinda desmentem a ideia de que haverá um arrebatamento secreto,
  
Mas o Dia do Senhor virá como o ladrão de noite, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade, aguardando e apressando-se para a vinda do Dia do Senhor, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça (I Pe 3: 10-13, ACF 95).

 A teoria é, no entanto, muito engenhosa e impressiona quem procura conhecê-la lendo seus manuais teológicos e ficções, o que pode explicar sua popularidade 8. Por muitos anos acreditei, preguei e ensinei a teoria do Arrebatamento Secreto sem a menor hesitação. Suas ficções são repletas de ação e suspense, e seus manuais teológicos enfileiram dezenas de referências. Acontece que, geralmente as referências bíblicas são isoladas e sem o trabalho de explica-las expositivamente. A maioria dos autores parece esperar que o leitor simplesmente confie que os textos citados realmente confirmem a teoria (veja nota9). Mas, por que as pessoas são convencidas? Talvez por algum tipo de apelo a autoridade, já que é preciso dedicar muito tempo e esforço apenas para compreender a lógica desse sistema interpretativo. Nestes casos, as pessoas tendem a achar mais prático e seguro confiar nos especialistas. Até porque, o sistema é tão confuso e complexo, que a maioria terá que consultar os manuais especializados de qualquer maneira. Então, para facilitar a vida daqueles que não possuem grande treinamento em teologia, algumas bíblias e manuais incluem infográficos detalhados explicando a complicada cronologia escatológica. O cenário perfeito.

Quando abandonei a teoria do arrebatamento secreto, tinha resolvido dedicar várias semanas ensinando sobre ela numa congregação pentecostal que pastoreava. Mandei imprimir cópias de uma apostila que havia escrito sobre o tema, e comparecia as aulas munido de dezenas de versículos, e de um colorido infográfico chamado ‘O Plano Divino Através dos Séculos’. Se algum aluno não conseguisse entender a teoria apenas com as leituras dos versículos, geralmente entendia, ou fingia entender, quando olhava para a cronologia ilustrada nas cores e ilustrações do infográfico. Geralmente funcionava muito bem. Menos com a irmã Marta. Numa de minhas palestras sobre o arrebatamento secreto, Marta foi a escolhida para ler algum versículo, que prontamente eu ia explicando.

- “Pastor”, ela pediu a palavra: “eu também acredito nisso, mas, honestamente?  Os versículos que estamos lendo não diz nada sobre ser secreto!”. Usei os argumentos canônicos da teoria, e ainda assim ela insistiu: “Verdade, pastor, também aprendi assim, e assim creio. Mas eu pensei que pelo menos um texto diria que é secreto. Me sinto confusa e frustrada por não entender”.

Igualmente frustrado, suspendi as aulas por algum tempo. Prometi aos alunos que estudaríamos outros assuntos, até que eu pudesse melhorar a qualidade do material. Estava envergonhado, mas achei melhor admitir que precisava rever as coisas e retomar o assunto com respostas mais apropriadas. Como a irmã Marta, descobri que o arrebatamento secreto que eu havia ensinado por tanto tempo, existia apenas nos manuais escatológicos de Dallas10, e no belo infográfico que eu mandara emoldurar. Quando retomei o assunto uns seis meses mais tarde, havia abandonado o Dispensacionalismo e suas estranhas teorias sobre a Segunda Vinda. Curiosamente, a irmã Marta preferiu continuar defendendo a teoria, mesmo sem conseguir prová-la.

* Marcelo Lemos, presbítero na Free Church of England (Igreja Anglicana Reformada do Brasil). Editor do blog ‘Olhar Anglicano’, e da revista ‘Báculo’ Também escreve para os blogues ‘Cristandade em Debate’ e ‘O Barco’.
_________

Bibliografia:

1 MacPherson escreveu no artigo ‘Deceiving and Being Deceiving’, que os pré-tribulacionistas pretendem provar a antiguidade de sua interpretação recorrendo aos escritos do Rev. Morgan Edwards, de 1788, e também aos escritos medievais de Pseudo-Ephraem, 1000 anos antes. Nessa tentativa, explica o autor, “não apenas encobrem e distorcem” o que já se publicou sobre os dois autores, mas “também ocultaram e perverteram as próprias palavras” que os dois escreveram (Preterist Archive, consultado 12 abr. 2018, tradução nossa).

2 A revista Chamada da Meia Noite é uma das publicações mais populares em defesa do Dispensacionalismo e da teoria do Arrebatamento Secreto no Brasil. A citação foi extraída do artigo ‘Distinção Entre o Arrebatamento e a Segunda Vinda’, de autoria de David Hunt, publicado originalmente pela Revista em 2012, e reproduzida no site (CHAMADA, acesso em 09 mai. 2018).

3
O Palavra Prudente é um tradicional site de linha batista fundamentalista, criado pelo missionário norte-americano Calvin Gardner, falecido em 2016.

4 DA SILVA. Pedro Severino; Escatologia: Doutrina das últimas coisas. 1988. CPAD.

5 Eufemismo é quando uma palavra, locução ou acepção mais agradável é utilizada numa tentativa de suavizar ou minimizar o peso conotador de outra palavra, locução ou acepção considerada menos agradável (GOOGLE, Dicionário, acesso 9 mai. 2018). Mas, ainda que suavize a linguagem, a fim de causar impacto menor, não altera o conteúdo da afirmação. Daí a o termo ser usado como sinônimo de “abrandamento, adoçamento, atenuação, comedimento, mitigação, moderação e suavização” (NORMA CULTA, acesso 9 mai. 2018).

6 PENTECOST, J. Dwigth. Manual de Escatologia: Uma análise detalhada dos eventos futuros. 2006. Editora Vida.

7 “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (I Tim. 1:15, ARC 1995).

8 ‘Deixados Para Trás’ é um bom exemplo: a série de livros vendeu, só nos Estados Unidos, 70 milhões de exemplares, se manteve por 300 semanas na lista de best-sellers do ‘New York’, e ganhou uma versão para os cinemas.

9 Severino, por exemplo, na seção que seu livro dedica à explicar a teoria do Arrebatamento Secreto, apresenta quase 20 textos-prova, sem se dar ao trabalho de ensinar expositivamente nenhum deles. No entanto, dedica algumas páginas a explicar termos gregos que, em tese, justificariam a interpretação que ele adotou previamente (DA SILVA. Pedro Severino; Escatologia: Doutrina das últimas coisas, pgs. 12-16. 1988. CPAD). Gilberto, outro autor assembleiano, garante ao leitor que “conforme expomos acima, no arrebatamento, Jesus vem secretamente para a Igreja. Na Revelação ele vem publicamente para Israel e as demais nações”. No entanto, o que ele expõe é a teoria do arrebatamento secreto em si, e o que ela diz sobre os textos. Não há, de fato exposições dos textos apresentados, ainda que o autor faça um trabalho um pouco mais dedicado ao defender que a Igreja não passará pela Grande Tribulação, pg. 21ss (GILBERTO. Antônio, O Calendário da Profecia, pgs. 15-23. 1985.CPAD).

10 Dallas Theological Seminary, um dos principais polos de difusão da teoria. 

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