Rev. Marcelo Lemos
Já vimos - veja aqui - que a liturgia cristã não é impedimento a ação do Espírito Santo no culto. Contudo, é verdade que podemos introduzir "fogo estranho" em nossa adoração. Vale lembrar que a Reforma Protestante nasceu enquanto combatia também elementos perniciosos que foram introduzidos no culto da Igreja.
A Reforma foi também um protesto litúrgico. Quer dizer que boa parte do trabalho dos reformadores visava justamente reformar a prática liturgia da Igreja. Vamos analisar alguns fatos sobre isso. Se esta é a primeira vez que você escuta falar sobre isso talvez fique bem surpreso.
Para quem desejar se aprofundar mais neste assunto pode ler também alguns dos artigos publicados no blog Olhar Anglicano, como: "Cranmer: Convite a um mártir evangélico", e "Nossa oração comum!". Nesses artigos comenta-se o que de reforma os protestantes ingleses introduziram em nossa liturgia. Vamos a um breve resumo.
A liturgia na língua do povo.
O culto no idioma do povo é tão comum hoje que talvez muitos nem imaginem um tempo no qual ele era feito em idioma completamente estranho ao homem comum, o latim. Os reformadores compreenderam que isso não se adequava aos preceitos Bíblicos relativos ao culto da Igreja, como "antes quero falar na Igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida" (I Coríntios 14.19).
Falar uma língua estranha no culto certamente não promove edificação e instrução, portanto, uma das mudanças radicais dos reformadores foi exigir que o culto fosse celebrado em linguagem comum.
A liturgia em comunidade.
Infelizmente nos dias de hoje há uma certa certa "profissionalização" do culto: shows, palestrantes, solistas, e coisas do tipo. Até mesmo nas Igrejas evangélicas encontramos liturgias nas quais o homem comum é meramente um espectador, no máximo tendo alguma participação mais emotiva nos momentos de show.
Também em algum momento da história antiga a liturgia ficou 'longe' do povo comum: o padre deveria ficar de costas para o povo e celebrar a Missa em latim.
Tanto o primeiro quanto o segundo exemplo estão bem longe dos ideais dos reformadores. Quando Thomas Cranmer batizou nosso livro litúrgico de Livro de Oração Comum ele tinha em mente combater essa alienação. Em nossos cultos cada fiel tem o privilégio de compreender e participar inteiramente da celebração liturgica.
Quanto alguém entra numa Igreja 'liturgica', como a anglicana, deve compreender que o culto exige sua participação ativa. Talvez por isso algumas pessoas considerem o culto anglicano "chato": não querem cultuar, querem apenas assistir ao espetáculo, como um garotinho que se diverte num circo.
A liturgia livre de superstições.
Outra grande preocupação dos Reformadores foi não permitir que superstições invadissem a adoração da Igreja. Superstições, aliás, que sempre acabam em idolatria. Daí no anglicanismo tradicional não ser permitido o uso de imagens ou ícones no culto. Ora, nem todo mundo que usa um ícone pratica a idolatria, mas os reformadores levaram essa ameaça muito a sério.
Enganamo-nos, porém, se jogarmos essa culpa apenas nos ombros dos cristãos 'romanos'. Se os Reformadores destruíram a idolatria, os evangélicos modernos a estão ressuscitando, seja idolatrando personalidades evangélicas, seja promovendo novas e perniciosas superstições. Quanto a isso basta visitarmos uma loja especializada em artigos religiosos para evangélicos. Lá encontraremos: sabonetes, toalhinhas, óleos, flores, cajados, maquetes da arca, machadinhos, e qualquer outra coisa supostamente uteis para nos fazer ser abençoados por Deus.
No culto anglicano, no entanto, não pode haver lugar para superstições e muito menos idolatrias. Nossa adoração precisa ser santa, portanto, nossa liturgia deve promover a santidade de nosso culto. E a liturgia anglicana, do Livro de Oração Comum, tem algumas formas bem úteis de como fazer isso.
Primeiro, o culto anglicano é centrado nas Escrituras.
Praticamente todo o culto é extraído das Escrituras, incluindo muitas das orações. Levamos isso tão a sério que cada comunidade tem seus leitores, pessoas responsáveis por ler as Escrituras durante o culto. E não são poucas: em cada culto lemos algum capítulo do Antigo Testamento, outro das Epístolas e mais um dos Evangelhos.
Costumo dizer que aqueles cristãos que não gostam de Bíblia deveriam ficar bem longe de um anglicano.
Segundo, o culto anglicano é centrado em doutrina.
Fazemos isso de três formas, o Lecionário, o Ano Cristão, e os Credos Históricos.
O Lecionário dá a cada anglicano o dever de ler quase toda a Escritura num período de tempo, que pode ser de um ano, dois ou três. O termo lecionário vem de "lições", e é assim chamado porque nos diz, diariamente, quais "lições" - texto bíblicos - devemos ler.
Esse Lecionário não existe sozinho, como ele temos o Ano Cristão, que nada mais é que o calendário da Igreja, cujo "ano novo" não começa no dia 1 de Janeiro, mas sim, quatro Domingos antes do Natal, no Advento. Esse calendário litúrgico nos conduz por todas as doutrinas centrais da Fé Cristã, como o Advento, a Encarnação, a Paixão de Cristo, a Santíssima Trindade, e assim por diante.
Mas isso não é tudo: nós ainda temos os credos históricos da Igreja: o Credo Apostólico, o Credo de Nicéia, e o Credo Atanasiano. Em nossos cultos estes credos podem e devem ser lidos, em tempo oportuno. Neles está registrada a fé impoluta da Igreja dos primeiros séculos, e aqueles que os negam são excluídos da comunidade dos fiéis.
Como vocês podem notar boa parte do que falamos hoje nos leva a ver que na liturgia da Igreja existe um elemento didático muito forte. Na próxima palestra abordaremos esse aspecto da liturgia, buscando encontrar nas Escrituras princípios teológico que o justifiquem.

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