Rev. Marcelo Lemos
Acredito
ter ficado claro no primeiro artigo – Flertando com o Liberalismo?
- duas coisas: primeiro, que não escrevi motivado pelo debate
Calvinismo X Arminianismo, ainda que eu mesmo seja um calvinista;
segundo, que não estou acusando o pastor arminiano presente ao
debate de ser, de fato, um liberal.
Entretanto, o que vimos acontecer no
debate do programa “Vejam Só!”, da Rit, semana passada foi,
mesmo que sem intenção, um flerte com o liberalismo. E o fato de
que o pastor arminiano, e seus defensores, não consigam perceber
isso é tanto decepcionante quanto assustador.
Vou
citar aqui, uma vez que o debate persiste, o principal argumento usado para defender a posição que o pastor arminiano
defendeu no debate da RIT. O argumento que analisarei aqui pode ser
encontrado no maior portal em defesa da teologia arminiana no Brasil
(Arminianismo.Com). Trata-se de um argumento usado pelo site, e
também por vários arminianos no Facebook – ainda que até mesmo
irmãos arminianos repudiam a confusão feita no debate, e
perpetuada depois por muitos.
“Como
não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o
diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado
por Deus, tudo era atribuído a Deus, até porque, de uma forma ou de
outra, tudo está sob o seu controle, mesmo quando algo é feito por
intermédio de outro. Os casos de Jó e Davi (a respeito do censo que
ele levantou) são clássicos. Ainda que aqueles males tenham sido
provocados pelo diabo, eles são atribuídos a Deus”.
Esse
argumento, admito, é muito melhor que o argumento usado pelo pastor
arminiano durante o debate. Porque nesse argumento ao menos se admite
que “tudo está sob o controle de Deus”, então, Deus é a fonte
de tudo. Perfeito. Aliás, esse raciocínio, como argumentou Graconato
no debate, coloca tanto arminianos quanto calvinistas no mesmo barco
a respeito da causa primeira de todas as coisas. Agora, ainda que o
pastor arminiano tenha desejado falar a mesma coisa, não foi o que
ele fez. Suas palavras foram: “(...)
todas as coisas são inadvertidamente
atribuídas a Ele, é por isso
que nós vemos I Samuel 1 dizer lá que Deus “cerrou a madre de
ana”... Como não tem ninguém para fazer isso, tudo é dito que
Deus é quem faz, e por isso tudo
a culpa é de Deus no Antigo Testamento, sobretudo no Antigo
Testamento”.
Observe
a diferença entre o argumento usado pelo site Arminianismo.Com e o
argumento usado pelo pastor arminiano. Para o site é dito que a
culpa é Deus porque, de certa forma , Deus controla todas as coisas.
Mas para o pastor, tudo é atribuído a Deus porque os autores
escreveram “inadvertidamente”.
Ora, no primeiro caso o site está interpretando o texto bíblico,
sem lançar contra ele um juízo negativo de valor, já no segundo
está claramente sendo dito que o texto errou. Interpretar é coisa
legítima, mesmo quando se erra, mas fazer juízo negativo contra o
conteúdo do texto é liberalismo – não importa que o maior site
arminiano do Brasil tente dizer o contrário.
No
entanto, mesmo o site Arminianismo.com cai no erro de atribuir
imperfeição ao texto bíblico; se é verdade que o parágrafo
citado termina bem, seu começo é um ataque contra a inerrância
bíblica, porque o autor diz: “Como
não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o
diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado
por Deus, tudo era atribuído a Deus”. Afinal, porque a Bíblia diz
no Antigo Testamento que Deus criou este ou aquele mau? Ela fez isso
porque seus escritores eram ignorantes, ou ela fez isso porque, de
alguma forma, Deus realmente controla todas as coisas? Um arminiano
pode simplesmente ficar com a segunda hipotese, e com isso aceitar
que a Bíblia não erra. Mas não é o que o pastor fez lá na RIT, e
não é, infelizmente, o que o site Arminianismo.com publicou em sua
página. Para ambos, os autores impregnaram o texto bíblico com seus
erros teológicos.
Acerca
de todo o debate que se gerou depois do programa, o site arminiano
declara o seguinte: “a
acusação do Graconato e dos calvinistas é injusta. O Pastor não
afirmou que a Bíblia contém erros, poderia dar a eles pelo menos o
benefício da dúvida”.
Como já afirmei no primeiro artigo, minha opinião é que o pastor
arminiano realmente usou um péssimo argumento, sem se dar conta das implicações lógicas do mesmo. Longe de mim acusar o pastor de
liberal – mas que certo aspecto de seu argumento é o mesmo da
neo-ortodoxia, sem dúvida o é. E não apenas o argumento dele
flerta com o liberalismo, o mesmo fazem todos aqueles que, com
argumentos semelhantes, tentam salvá-lo. E repito: nenhum
arminiano precisa disso, e aqueles que se apegam a tal, apenas
demonstram quão frágil é sua teologia, a ponto de precisarem
atacar a própria Escritura em sua defesa.
Quanto
a deixar que o pastor arminiano se defenda, sou completamente a
favor. No entanto, durante o debate, não ficou nenhuma dúvida sobre
o que ele estava dizendo sobre os autores bíblicos terem feito
afirmações erradas. Não importa quanto o site arminiano acuse o
Pastor Graconato de ter tratado seu colega com falta de caridade, a
verdade é que o calvinista o interrogou lá mesmo; acompanhe a
transcrição que fiz:
Pastor
Arminiano: “todas as coisas são “inadvertidamente” atribuídas
a Ele, é por isso que nós vemos I Samuel 1 dizer lá que Deus
“cerrou a madre de ana”... Como não tem ninguém para fazer
isso, tudo é dito que Deus é quem faz, e por isso tudo a culpa é
de Deus no Antigo Testamento, sobretudo no Antigo Testamento (…)
tudo então acabava sendo atribuído a Deus”.
Pastor
Calvinista: “Erradamente?”
Pastor
Arminiano: ““Erradamente, sem dúvida alguma! Porque Deus não
tem a culpa de tudo isso!”.
Onde
está a falta de caridade? Para ter certeza de que entendia
corretamente o argumento do arminiano, o pastor calvinista torna a
pergunta ainda mais específica (como se precisasse):
Pastor
Calvinista: “Erros no Antigo Testamento?”
Pastor
Arminiano: “Não! Erros na visão teológica de muitos autores
bíblicos... nem tudo que a Bíblia narra ela aprova”.
Aqui
temos uma boa notícia, e uma má. A boa é que o pastor, de fato,
não deve ser acusado de ser um liberal, e neste site jamais o
acusamos de tal coisa. A notícia ruim é que, apesar de acreditar
que o Antigo Testamento não erra, seu argumento diz exatamente o
contrário: o Antigo Testamento errou! Atentem para o eufemismo
utilizado pelo pastor arminiano: “Erros na visão teológica de
muitos autores bíblicos”. Ora, mas onde é que o pastor leu essa
visão teológica errada dos tais autores bíblicos? Foi no Corão?
Foi no livro dos Vedas? Foi no Livro de Mórmon? Claro que não!
Certamente foi na Bíblia, logo, a Bíblia registrou uma teologia
errada, transmitida aos povo de Israel como Palavra de Deus –
logo, a Bíblia errou! Pior do que isso: errou e mentiu, porque,
segundo o argumento, aquilo não era Palavra de Deus, e sim palavra
de homens com uma teologia equivocada.
O
mais assustador é a aparente incapacidade de lidar com conceitos
teológicos distintos, ainda que relacionados. Vamos demonstrar essa
aparente incapacidade de modo breve, antes de encerrarmos:
1)
Tanto o pastor arminiano quanto seus defensores, argumentam, por
exemplo, que “nem tudo que a Bíblia narra ela aprova”. Isso é
verdade! Quando a Bíblia diz que “A” matou “B” não
significa que ela aprova o assassinato. Quando a Bíblia diz que “C”
estuprou “D” não significa que ela aprova aquela violação. Por
exemplo, a Bíblia narra que os habitantes de Sodoma queriam ter
relações sexuais os dois anjos que visitam Ló. Ela narra. Não diz
que é bom. Mas isso não quer dizer que exista erro na narrativa, ou
uma visão teológica “inadvertida” nela, ou em
qualquer outra.
2)
Tanto o pastor arminiano quanto seus defensores argumentam, ainda,
que a Revelação Bíblica foi progressiva. Foi mesmo. Até chegar o
Novo Testamento o conceito claro de Trindade, por exemplo, era
desconhecido. Mas, quando foi que os autores do Antigo Testamento
falaram contra a Trindade? Quando foi que os autores do Antigo
Testamento negaram a Trindade? Quando foi que os autores do
Antigo Testamento contradisseram o que o Novo Testamento
revelou sobre a Trindade? Sim, eles falaram incompletamente,
mas nunca contraditoriamente ou falsamente. É verdade
que eles não viram a Trindade, mas é igualmente verdadeiro
que tudo o que eles viram sobre Deus era a Verdade!
Por
outro lado, querem nos convencer que eles viram errado,
entenderam errado, e ainda nos transmitiram seus conceitos
errados sob o nome de Palavra de Deus? Mas, quando confrontados,
gritam “não! Não é isso!”, como se esses conceitos errados
eles tivessem encontrados nos livros da Sra. White! Confundindo
completamente os próprios conceitos teológicos dos quais se valem
em sua defesa, tentam construiu uma apologética – absolutamente
desnecessária para sua causa – através de um amontoado de
eufemismos.
Não
é objeito dessa polêmica aqui no Olhar Anglicano convidar quem quer
que seja a abraçar, ou rejeitar, esta ou aquela visão
soteriológica. Nossa única preocupação é dizer: não, meus
amigos, a Bíblia nunca erra; toda ele é a perfeita Palavra de Deus!
É isso que nós, anglicanos reformados, defenderemos, contra os teólogos
liberais, ou contra aqueles que, ainda que sem a intenção, flertam
com qualquer tipo de ataque as Escrituras.
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