Rev. Marcelo Lemos
Muito do que veremos neste artigo já escrevemos no estudo sobre a "A Natureza de Cristo", mas dada a importância e a primazia do tema dedicaremos um especialmente ao Dogma da Santíssima Trindade.
A Trindade é um tema assustadoramente ausente dos púlpitos atuais, bem como de nossa arte sacra, especialmente a música. Por todos os lados vemos constantes ataques ao que ela significa, e ficamos com a impressão de que apenas cristãos "do passado" se importavam com este tema.
Menosprezar do Dogma Trinitariano não é uma opção para aqueles que desejam viver a espiritualidade anglicana. O cristão anglicano vive cercado pela fé trinitária, tanto em sua liturgia quanto em sua confissão de fé. Nosso objetivo hoje é verificarmos o que os "39 Artigos" afirmam sobre este tema.
Primeiro, o que diz o Dogma da Trindade?
Resumidamente, a Igreja ensina que Deus é Um, e este Deus Único subsiste eternamente em três "pessoas". Deus é, segundo as Escrituras, Pai, Filho e Espírito Santo. Não são três Deuses, mas o mesmo Deus.
Negar a doutrina da Trindade conduz a pessoa ou a heresia do politeísmo, como nos casos das Testemunhas dJe Jeová, ou a heresia moralista, como se dá com a seita Voz da Verdade. Essas duas interpretações foram condenadas pela Igreja de Cristo.
Como parte da Igreja de Cristo no mundo, terceira maior tradição cristã do planeta, os anglicanos iniciam sua confissão de fé, chamada de 39 Artigos da Religião, declarando sua fé no dogma da Santíssima Trindade:
Há um único Deus, vivo e verdadeiro, eterno, sem corpo, sem partes nem paixões[1], de infinito poder, sabedoria e bondade; Criador e Conservador[2] de todas as coisas visíveis e invisíveis. E na unidade desta Divindade há três Pessoas, da mesma substância, poder e eternidade: o Pai, o Filho, e o Espírito Santo - ARTIGO I.Algumas vezes nos referimos a primeira, segunda e terceira pessoa da Trindade. Com isso não se diz que exista grau de importância entre as pessoas subsistentes em Deus. Esse modo de fale simplesmente faz menção a certa ordem relatada na própria Palavra de Deus. O Evangelho nos diz que o Pai enviou Seu Filho, Jesus. Isso se deu e suas carnação, morte e ressurreição. Depois, o Pai e o Filho enviaram o Espírito Santo. Assim, estabelece-se uma ordem, não de importância, mas cronológica e ministerial. Em S. João 14. 16 vemos claramente as três pessoas de Deus em ação:
"Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre".Mas, Pai, Filho e Espírito Santo não poderiam ser uma mesma pessoa? Não. Este texto nos mostra que Pai, Filho e Espírito Santo interagem entre si. Eles conversam, e realizam obras juntos. Claramente temos aqui três pessoas, não apenas três nomes de uma única pessoa.
Mas, será que Jesus, ou o Espírito Santo não poderiam possuir algum grau diferente, ou inferior de divindade? Muitos hereges pensam assim. Jesus é, eles dizem, um ser divino, mas apenas o Pai é Deus verdadeiro. Como já sinalizamos tal interpretação cai na heresia do politeísmo. Somente um Deus pode ser adorado, logo, se Jesus é adorado Ele precisa, necessariamente ser Deus.
Mas, talvez o Espírito Santos não seja um ser pessoal, mas somente uma energia ou poder enviado por Deus, certo? Ou então, talvez ele seja o Pai que vem a nós de modo invisível? Ele não pode ser apenas uma força, ou mero poder, pelo simples fato de que neste texto Jesus o está descrevendo como uma pessoa. O Pai vos dará OUTRO Consolador, ou outro Advogado. Jesus veio ao mundo como nosso consolador e advogado. Ao voltar aos céus prometeu que o Pai enviaria Outro, portanto este outro necessariamente é um ser, não uma coisa.
Além disso, imaginar que o Espírito Santo é simplesmente o Pai na forma invisível não faz muito sentido, uma vez que Deus, o Pai, sempre foi e sempre será invisível. Somemos a isto o fato de que Jesus diz que o Pai ENVIA o Espírito, logo, são distintos entre si. Assim como Jesus não pode ser o Pai, por que ora ao Pai, e foi enviado ao mundo pelo Pai, também o Espírito não pode ser o Pai, por que pelo Pai foi enviado.
Como sinaliza o teólogo reformado Louis Berkhof: "O Novo Testamento oferece clara revelação de Deus enviando Seu filho ao mundo, Jo 3.16; Gl 4.4; Hb 1.6; 1 Jo 4.9; e do pai e Filho enviando o Espírito, Jo 14.26; 15.26; 16.7; Gl 4.6. Vemos o pai dirigindo-se ao Filho, Mc 1.11; Lc 3.22, o Filho comunicando-se com o Pai, Mt 11.25, 26; 26.39; Jo 11.41; 12.27, 28, e o Espírito Santo orando a Deus nos corações dos crentes, Rm 8.26. Assim, as pessoas da Trindade, separadas, são expostas com clareza às nossas mentes".
Felizmente, não são necessárias longas discussões para se demonstrar biblicamente o princípio lógico da Trindade. Como se sabe existe apenas um Deus, portanto, se Jesus é Deus, o Deus Verdadeiro, ele precisa ser um com o Pai. "É outra vez, quando introduz no mundo o primogênito diz: E todos os anjos de Deus o adorem" ( Heb. 1.6). "Ele disse creio, Senhor, e o adoro" (S. João 9.38). "Então aproximando-se os que estavam no barco, e adoraram-no, dizendo: Es verdadeiramente o Filho de Deus" (S. Mateus 14.33).
Esta é a fé daIgreja. Este é o ensino das Escrituras. As negativas apresentadas foram condenadas como heresias pela fé cristã.

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