John G. Mason
Título original: "Memory".
Em seu livro 'The Reformation Experience', Eric Ives, professor emérito de História de Inglês na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, escreve que, quer concordem ou discordem dela, a coisa mais notável sobre a Reforma é que a Reforma ainda permanece importante.
Ao observar que muitos estudantes da Reforma exploram as questões políticas, econômicas e sociais da época, ele insiste que a Reforma era essencialmente um evento religioso. Escrevendo a partir de uma perspectiva "de baixo pra cima" sobre a história do Século XVI, ele explora o motivo das enorme mudanças e transformações ocorridas na Inglaterra.
Ele ressalta a importância da compreensão que as Escrituras despertaram, e a recuperação de princípios bíblicos fundamentais: somos salvos pela fé somente, por meio da graça de Deus, e exclusivamente por intermédio de Cristo. Ele observa ainda o que significou a tradução da Bíblia para o inglês. Todas as igrejas na Inglaterra foram obrigadas a ter uma cópia de sua tradução. Ela deveria ser lida em todos os serviços e estar disponível para que as pessoas pudessem ler em outros momentos. Sermões também eram regularmente pregados.
Ao chegarmos as páginas finais de seu livro, o professor Ives nos faz lembrar algo sobre os sermões: "é notório que apenas 10% do que as pessoas escutam permanece em suas mentes quando saem pelas portas da Igreja. Sendo assim, o que marcou aquelas pessoas?". Nosso Século XXI anseia por educação, mas as pessoas na Idade Média não eram estudiosas: eram ouvintes. E elas repetiam a Liturgia, em voz alta, e o faziam regularmente. Assim, as palavras que ouviam e repetiam, ensinavam-lhes a fé, duas coisas em particular: o confiar em Deus e o viver piedosamente".
Supondo que esta conclusão esteja correta, ela diz muito sobre a importância da memoria - algo que podemos facilmente perder no mundo acelerado e digital de hoje.
As palavras de S. Pedro vem a mente: "Por isso, sempre terei o cuidado de lembrar-lhes estas coisas, se bem que vocês já as sabem e estão solidamente firmados na verdade que receberam. Considero importante, enquanto estiver no tabernáculo deste corpo, despertar a memória de vocês, porque sei que em breve deixarei este tabernáculo, como o nosso Senhor Jesus Cristo já me revelou. Eu me empenharei para que, também depois da minha partida, vocês sejam capazes de lembrar-se destas coisas" (II Pedro 1, 12-15, NVI).
Lembrar e despertar a memória são as palavras-chave aqui. S. Pedro queria manter frescas nas lembranças de seus leitores as coisas que tinham sido ensinadas sobre Deus; ele sabia o quanto era importante que permanecessem firmes na verdade de Deus.
O cristianismo é uma fé fundamentada na verdade recebida. Há um conjunto de informações que podem ser conhecidas e recordadas. A preocupação de S. Pedro é que o Cristianismo pudesse se desvincular de suas amarras históricas e tornar-se apenas mais uma experiência espiritualista. Seu desejo era que o povo de Deus conhecesse e recordasse do Evangelho e do ensino fundamental das Escrituras.
Os líderes da Reforma estavam comprometidos em ler e pregar a Bíblia. Procuraram por maneiras de ensinar e edificar a fé e a vida do povo de Deus. Assim, com o Livro de Oração, o Arcebispo Thomas Cranmer projetou um plano de leitura diária da Bíblia que conduziu a todos uma vez por todo o Antigo Testamento, e três vezes pelo Novo.
O Livro de Oração inclui ainda um Catecismo a ser ensinado na Igreja, e que cada família devia usar na criação de seus filhos. O Catecismo inclui também o Credo dos Apóstolos, a Oração do Senhor e o nosso dever para com Deus e para com nosso próximo (o que inclui o Estado).
No segundo Livro de Oração (1552/1662) está presente uma teologia clara e consistente, baseada na Bíblia. As pessoas por meio da liturgia anglicana ouvem as Escrituras sedo lidas, cantadas e pregadas. Além de uma oração penitencial, são também prescritas orações para temas de interesses comuns - e daí vem a denominação Livro de Oração Comum.
Além disso, na liturgia eucarística de 1552/1662 a essência do Evangelho de Deus é clara. E, com a repetição, as palavras-chave tornam-se gravadas na memória - por exemplo, palavras que lembram o significado da morte de Jesus, nas quais se lê que Ele fez um sacrifício completo e suficiente, uma oblação e satisfação pelos pecados de todo o mundo...
O desafio para nós hoje é determinar como podemos ensinar e edificar o povo de Deus na verdade inegociável de Deus, de modo que seja recordada.
Nota do editor: artigo publicado originalmente no Anglican Connection, e traduzido com autorização para o blog Olhar Anglicano, por Marcelo Lemos.
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