Marcelo Lemos
Aproveitando os últimos dias de férias numa pequena cidade
mineira de nome S. Joaquim de Bicas, acabei convidado a participar de
uma celebração eucarística na Capela Nossa Senhora Aparecida em
Vale do Sol, uma pequena comunidade rural. Nesse texto compartilho
algumas impressões gerais a respeito da liturgia da qual
participamos numa Sexta-Feira, dia 21 de Julho de 2017.
Para chegarmos a pequena capela seguimos por uma estrada de terra empoeirada e cujas árvores laterais formavam como que um túnel sobre
nossas cabeças. Ultrapassados apenas por uma velha Fiorino que nos
envolveu numa nuvem de terra vermelha, caminhamos cerca de 10 minutos
guardados por uma vira-latas de nome ‘Susy’ e guiados por um
garotinho que ia iluminando nosso caminho com uma lanterna que de
tanto piscar mais parecia um vaga-lume. Além de vigiar meus dois
filhos na escuridão, também ajudava a carregar um caldeirão com
caldo de mandioca que foi fartamente servido ao término da
celebração.
Breve histórico da comunidade
Alguns anos atrás uma leiga de nome Alaíde mudou-se para essa
pequena comunidade rural e percebeu que os católicos da região
precisavam caminhar longos trajetos até a Igreja mais próxima;
começou a visitar os moradores locais e realizou algumas grandes
façanhas: um pequeno terreno e gente disposta a construir com o
próprio trabalho e recursos pessoais a pequena e humilde capela que
ilustra esse artigo.
Hoje a capela já pode contar com a visita semanal de um Ministro
Ordenado, além de um ministro leigo totalmente dedicado as
necessidades de seus membros. No dia da minha visita contei, por
alto, 24 pessoas presentes. Um autêntico trabalho missionário que
pode inspirar aqueles dentre nós, anglicanos reformados, que tem
dedicado tantos esforços para anunciar o Evangelho da Paz.
Parêntese teológico
Por se tratar de uma liturgia da Igreja Católica Apostólica
Romana é natural que alguns elementos do culto destoe da teologia e
da espiritualidade anglicanas. Primeiro pela presença de várias
imagens dentro da capela; segundo por dois momentos nos quais houve
invocação aos Santos, como na segunda parte do Ave Maria, na qual
ocorre o pedido de intercessão a Virgem. Essa oração em si, sem o pedido de intercessão a Maria, é
bíblica e está presente na liturgia anglicana, como por exemplo na Oração Vespertina, sob o nome de Magnificat.
Outro elemento da Missa que não tem lugar na liturgia anglicana é
Epiclese, gesto feito pelo Ministro para que os elementos do Pão e
do Vinho sejam transformados no Corpo e no Sangue de Cristo, milagre
que a teologia romana denomina transubstanciação. Esse gesto faz
com que as mãos do padre formem uma espécie de pomba, simbolizando
a descida do Espírito Santo sobre os elementos. Se no Anglicanismo
rejeitamos o erro daqueles que veem a Ceia apenas como um memorial e
símbolo, também rejeitamos a ideia de que os elementos se
transformem em algo diferente do pão e do vinho, mas aceitamos que
Cristo está, de fato, presente nesses elementos, espiritualmente.
Sem querer minimizar tais questões, ouso dizer que é possível
presenciar muitos cultos evangélicos com elementos supersticiosos
tão ou ainda mais graves que estes (culto a personalidades, amuletos
mágicos como lenços, rosas etc).
A liturgia
A liturgia na Capela foi como era de se esperar: bem fiel ao rito
latino e com músicas já bem conhecidas do Hinário da CNBB. Um
detalhe que já me havia sido adiantado por um dos presentes era
sobre o padre tocar viola e cantar. “Esse padre é do povão”,
foram as palavras a mim ditas. E de fato, o padre cantou e tocou
todas as músicas, inclusive o Sanctus e o Kyrie Eleison (todos na
versão moderna da CNBB). O desempenho do padre, contudo, não
prejudicou o clima da liturgia, que foi um pouco mais solene do que
esperávamos, e isso foi uma surpresa pra lá de agradável.
Como de praxe, a liturgia começou com a Acolhida e com os Ritos
Iniciais. Aqui um senhor da comunidade explicou o tempo litúrgico,
apresentou os visitantes e deu alguns breves avisos. Durante esse
tempo foi solicitado, pelo padre, que cada fiel presente, inclusive
crianças e visitantes, apresentasse a Deus uma intenção; depois de
cada intenção a comunidade repete: “Senhor, nós vos pedimos!”.
Difícil dar razão àqueles que acreditam que um culto litúrgico,
como é o Rito Romano, precise ser, necessariamente, engessado e com
‘rezas’ decoradas e repetitivas.
Imediatamente após estas coisas teve inicio a chamada Liturgia da
Palavra. O rito romano pós-conciliar (Vaticano II) passou a dar
muita ênfase a Liturgia da Palavra, que funciona como uma primeira
parte da Missa. Pessoalmente coloco essa mudança no crédito da
Reforma Protestante, que em 2017 comemora 500 anos. As leituras
bíblicas, três no total, foram feitas a partir de um Púlpito
localizado na lateral esquerda da Mesa, sendo que tanto um quanto o
outro estavam completamente cobertos pela cor verde – cor apropriada
para o tempo litúrgico da ocasião, como já explicamos sobre a
visita a Igreja Luterana Bom Pastor (leia o artigo para maisdetalhes).
O Evangelho, como sempre, foi lido pelo Ministro, que entregou seu
sermão da própria mesa. Não sei se pelo espaço reduzido, um
segundo Púlpito para a pregação, infelizmente, não havia. Essa
ausência de um Púlpito para o pregador tem sido muito comum nas
Igrejas Romanas, de modo que os padres geralmente pregam diretamente
da Mesa. Tirando isso o Sermão foi surpreendentemente bíblico, e
sem as 'garrinhas' da Teologia da Libertação, como já presenciamos
inúmeras vezes. E o padre soube relacionar claramente a situação
dos judeus e dos primeiros cristãos com a vida da comunidade rural
que o escutava. Nota máxima.
Destaque especial para a proclamação dos Salmos realizada por
uma salmista leiga da própria comunidade: a dona Alaíde, a mesma
que deu inicio a história da capelinha. Ela, mesmo não sendo
musicista, cantou cada estrofe do Salmo do dia de modo firme,
harmônico e solene, seguida pela assembleia que repetia um dos
versos como que um refrão. Bonito, simples, e muito edificante.
No dia seguinte a salmista me confidenciou, durante um almoço em
sua casa, que alguns sitiantes da região, membros da Assembleia de
Deus e da Congregação Cristã, a haviam ajudado, tempos atrás, a
musicar alguns dos salmos que ela agora canta na capela. Me atrevi,
então, a musicar mais dois Salmos para ela – que os usa na
Tradução Ave Maria, Ed. Santuário (uma tradução maravilhosamente
musical). Silenciosamente agradeci por todas as vezes que visitei o
Mosteiro São Bento em São Paulo, onde tive meu primeiro contato com
esse estilo de música mais voltado para o gregoriano. Feliz, me
confidenciou ter ficado muito interessada em conhecer a liturgia
anglicana. Talvez a história da D. Alaíde como salmista seja um
exemplo despretensioso e não-intencional de esforço ecumênico
entre três tradições bem diferentes entre si (pentecostais,
romanos e anglicanos).
A respeito da Liturgia Eucarística o ponto mais importante a
destacar foi a comunhão realizada nas duas espécies, Pão e Vinho.
Um destaque justo, visto que geralmente o Rito Romano permite a
comunhão apenas do Pão, ficando o Vinho restrito ao celebrante –
segundo a teologia romana o Pão se transforma literalmente em carne,
logo, o sangue já está presente nele, tornando o Vinho opcional.
Quando o padre fez o anuncio notei que o Ministro da Eucaristia, um
leigo provavelmente octogenário, pediu algumas orientações, mas
tudo transcorreu na mais perfeita ordem.
Um momento descontraído da celebração ocorreu logo após a
Comunhão, quando o padre deixou a cargo da comunidade a oração
“Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo...”. O problema é
que a comunidade ‘travou’, e apenas um senhor conseguiu dar
seguimento a oração, trocando porém a ordem das frases, ao que o
padre interveio para riso geral da assembleia: “Não tem problema
meu querido, o significado é o mesmo!”.
Aliás, um esboço de toda a liturgia foi entregue a cada fiel,
manuscrita em folhas A4 já desgastadas pelo uso. Infelizmente, na
copia que me entregaram faltava uma estrofe de um dos hinos. O
manuscrito estava em letra simples mas legível e com pequenos erros
de ortografia. Observei também que em cada página do manuscrito
alguém se deu ao trabalho de rubricar, como que validando o seu
conteúdo, mas esqueci de investigar a respeito e não sei dizer se a
assinatura é do padre, do ministro da eucaristia ou de outro.
Conclusão
Como que adivinhando que não sou fã de caldos, especialmente de
mandioca, havia também no Ágape após o culto uma mesa repleta de
chás, café, pão de queijo e bolos variados. Só por isso eu já
voltaria outras vezes a esta capela, é claro.
Brincadeira a parte, foi uma ótima experiência, apesar da
necessidade de apontar alguns desacordos teológicos com o rito
romano. E o que de mais valioso levamos de nossa visita a capela
talvez não tenha sido a Liturgia em si, mas provavelmente sua
história maravilhosamente edificante. E também o sermão. Que Deus
nos conceda, anglicanos reformados, missionários e missionárias de
valor, tanto entre nossos ministros quanto entre todos os fiéis.
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