Marcelo Lemos
A Igreja poderia ganhar muito caso nossos embates teológicos ou mesmo nossos esforços pela sistematização da fé não terminassem por nos fazer ignorar a simplicidade e o valor da linguagem bíblica.
Um primeiro exemplo: porque Calvinistas precisam debater entre si se existe realmente uma oferta livre do evangelho? Uma vez que Deus já predestinou um número certo de pessoas que aceitarão o Evangelho, a oferta das boas novas não é livre, dizem alguns. E tal raciocínio, quando levado as últimas consequências, pode acabar no chamado hipercalvinismo, que os próprios calvinistas rejeitam. E mesmo que não chegue a esse ponto não é difícil encontrar quem coloque em dúvida a teologia de um pregador que 'ouse' convidar os pecadores ao arrependimento e a conversão.
Meu ponto é que a linguagem bíblica claramente [sugere] que a oferta do Evangelho é para todos, é livre e, além disso, vem ao homem na forma de um convite: um convite que [sugere] implicar uma escolha por parte do pecador. E, não, isso não tem cara de arminianismo, é apenas a forma da Bíblia se expressar. Por qual razão é difícil aceitar isso? Não há o que discutir aqui. Podemos, claro, na academia e nos livros de teologia sistemática, analisar as questões metafísicas desse convite e dessa escolha, mas na prática, devemos simplesmente agir conforme o que está escrito, ou seja, é dever da Igreja convidar a todos os pecadores, e é dever de todos os pecadores o fazer uma escolha. Simples assim.
Por outro lado temos aqueles que, acertadamente, não tem problemas com o convidar e o escolher, mas tem dificuldades em reconhecer a total incapacidade humana, por exemplo. E aqui, mais e mais debates, mais e mais tentativas diversas de se definir o que seria, e quão intensa poderia ser essa dita inabilidade do homem. Se muitos calvinistas tem problemas em lidar com o fato da Bíblia convidar todos ao arrependimento, muitos arminianos tem sérios problemas com o fato da Bíblia afirmar que todos os homens estão mortos espiritualmente! E morte, claro, significa... morte! Não é doença, não é fraqueza! Bem, e é à esse homem totalmente incapaz - espiritualmente morto - que a Bíblia ordena arrependimento e fé. Parece calvinista demais? E daí?
Como se vê, a linguagem bíblica não tem 'rabo preso' com nossas teologias. Nossas sistematizações da fé são, no máximo, tentativas bem intencionadas de nos aproximarmos do sentido mais fiel dos textos sagrados, mas não são inspiradas pelo Espírito Santo. Inspirada é a linguagem bíblica, de modo que é temerário valorizar mais aquela do que esta.
Passemos a um exemplo que diz respeito ao Sacramento do Batismo. Há quem diga que ele é desnecessário para a salvação. Outros dizem que ele é apenas um símbolo. E há aqueles que o compreendem como verdadeiro meio de graça, além de outras opiniões. Em tempo, recentemente chegou até nós um artigo que diz que o Batismo não precisa de água... Novamente, o problema está em muitas vezes temermos repetir a linguagem bíblica, pura e simplesmente como nos foi dada. "Arrependam-se, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo"(Atos 2:38). Parece meio papista a parte grifada, não é mesmo? Novamente, e daí?
Sim, é verdade que analisando o contexto bíblico podemos dizer que o Batismo não é uma água mágica que transforma pagãos em crentes fiéis, independentemente da fé. Podemos e devemos explicar e ensinar isso. Mas, qual foi a última vez que você viu um pregador evangélico fazer algo tão simples como repetir a Bíblia ordenando "cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados"? Ou então, "que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo" (I Pedro 3, 21).
O caso é tão sério que muitos hoje talvez condenassem o próprio João Calvino por ter escrito sem receito aquilo que a linguagem bíblica expressa: "Nós afirmamos que toda a culpa do pecado é tirada no batismo, de modo que
os restos do pecado ainda existentes não são imputados. Para que isso
possa ser mais claro, permita que os meus leitores se chamar de que há
uma dupla graça no batismo, pois a remissão dos pecados e da regeneração
é nos oferecida. Nós ensinamos que a remissão completa é feita, mas
essa regeneração só é iniciada e continua a fazer progressos durante
toda a vida. Assim, o pecado realmente permanece em nós, e não é
instantaneamente em um dia extinto pelo batismo, mas como a culpa é
apagados é nulo em relação à imputação".
Observemos que Calvino não concorda com a interpretação romanista, mas também não joga a linguagem bíblica fora. Sua explicação aceita as implicações do que o Novo Testamento diz.
O problema é que temos valorizado tanto nossa sistematização da fé que a simples citação de determinados textos bíblicos é capaz de acender um sinal vermelho em nossas mentes - é bem possível, aliás, que um pregador leia um desses textos sobre o Batismo e passe 40 minutos falando mal da teologia e da interpretação da Igreja Romana, o que seria hilário, já que ele está [supostamente] pregando um texto bíblico e não criticando o catecismo romano.
Um exemplo menos óbvio, porém gritante, dessa nossa obstinação, é que a mesma nos levou a inventar uma aberração litúrgica amplamente aceita hoje: o culto sem Ceia. Onde na Bíblia encontramos um único culto oferecido a Deus no qual as pessoas não estivessem participando de uma Ceia, seja tipologicamente, no Antigo Testamento, ou em realidade, no Novo? Simplesmente não existe. Com muita razão, nossa sistematização da fé nos ensina sobre os perigos de impregnar a Ceia do Senhor com superstições, então, querendo nos livrar de um perigo, ousamos ser mais santos que a própria Escritura; a pretexto de obedecê-la inventamos algo que nela não existe: o culto sem Ceia!
Não se trata, claro, de negar o valor da teologia sistemática, mas de reconhecer que precisamos injetar mais linguagem bíblica em nossa reflexão teológica, e especialmente em nossa pregação, em nossos púlpitos e até mesmo em nossos folhetos evangelísticos.
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