Rev. Marcelo Lemos
Em artigo anterior analisamos o ensino bíblico a respeito das Duas Naturezas do Cristo, tomando como base os nossos "39 Artigos da Religião". Falaremos agora sobre a Obra do Cristo.
Cristo e a Doutrina da Expiação
"... verdadeiramente padeceu, foi crucificado, morto e sepultado, para reconciliar Seu Pai conosco, e ser vitima não só pela culpa original, mas também pelos atuais pecados dos homens" - Artigo II.Nos informa a confissão de fé anglicana que Cristo, quando habitou entre os homens, "padeceu", "foi crucificado", "morreu" e foi "sepultado". Mas, por qual razão o Filho de Deus se submeteria a todos estes sofrimentos? A mesma confissão de fé nos explica "para reconciliar Seu Pai conosco". Temos aqui uma ideia básica da Teologia Crista, de que existe uma separação, uma inimizade, entre Deus e os homens.
Esse abismo existente entre nos e o Criador começou no principio da Historia humana, com o pecado de Adão e Eva, que legaram a cada um de nos aquilo que nossa confissão, juntamente com toda a Igreja de Cristo, denomina "culpa original", ou, Pecado Original. O pecado de Adão afetou os seres humanos de forma mortal, como Deus mesmo havia dito: "certamente morreras" (Gen. 2:17).
Desde então, o homem vive em estado de completa separação de Deus, e seu coração - ou sua natureza - inclina-se invariavelmente para o mal. O homem tornou-se uma arvore ma, e por isso, naturalmente produz frutos ruins. A menos que o Espirito Santo transforme o coração do homem, isso é tudo o que o homem pode fazer, assim como uma macieira só é capaz de produzir maças.
Observemos como as Escrituras descrevem o homem antes de sua conversão:
"Ele nos deu vida, estando vos mortos nos vossos pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espirito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nos andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e eramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais" (Efésios 2:1-3).Podemos ler novamente essa porção das Escrituras frisando o que diz sobre a natureza. Sao Paulo nos diz que os homens estão "mortos nos vossos pecados", são "filhos da desobediência", que apenas seguem "as inclinações da... carne", e "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos", e conclui dizendo que os homens, sem Deus, são "por natureza filhos da ira". Como é terrível a situação espiritual do homem, não é mesmo?
E tudo isso começou com aquilo que os "39 Artigos" chama de "culpa original", aquele primeiro pecado que afetou tao terrivelmente a humanidade a ponto de Paulo afirmar que "...tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como esta escrito: Nao ha justo, nem um sequer, não ha quem entenda, não ha quem busque a Deus; todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis; não ha quem faça o bem, não ha nem um sequer" (Romanos 3: 9-12).
Quando compreendemos a gravidade do nosso pecado, e o quanto ele nos afasta de Deus, podemos compreender o que os "39 Artigos" nos querem dizer sobre Cristo, por nos, ter se tornado uma "vitima". De fato, segundo a Lei de Deus, o "salario do pecado é a morte", como diz Romanos 6.23.
Por isso, no Antigo Testamento para que o povo não fosse exterminado pela santidade de Deus, exigia-se que certos tipos de animais fossem sacrificados, a fim de "expiar" os pecados cometidos. "Expiar" significa "cobrir", significando, quanto ao pecado, que o sangue derramado "cobria" ou "escondia" os pecados do povo dos olhos do Senhor.
Entretanto, o sacrifício de todas aquelas vitimas inocentes do Antigo Testamento - como pássaros e cordeiros - não eram o bastante para quitar nossas dividas com Deus. O autor da Carta aos Hebreus explicitamente diz que era "impossível que o sangue de touros e dos bodes" (Hebreus 10:4) tirasse os pecados do povo. A solução obtida por meio daqueles sacríficos era apenas temporária.
Podemos dizer, então, que que os sacrifícios do Antigo Testamento eram imperfeitos. Toda vez que o homem pecava, a vida de um novo animal precisava ser ofertada a Deus. Mesmo por aqueles pecados que os homens não recordavam, um sacrifício era oferecido anualmente. Deus aceitava aqueles sacrifícios? Sim, mas eles eram apenas um arranjo temporário ate que Cristo, a Vitima Perfeita, viesse ao mundo.
"Então disse: Eis que venho, para fazer, o Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez.
E assim como todo o sacerdote aparece a cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, esta assentado a destra de Deus. Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados" (Hebreus 10: 9-14).
Cristo, nossa Vitima Perfeita. Cristo, nosso Sacrifício Perfeito. Uma única vez Cristo foi imolado perante Deus, e conquistou a salvação dos seus para todo o sempre.
Podemos observar que a Lei não foi alterada. Os nossos pecados ainda nos tornam merecedores da morte e da condenação eternas. E ainda se faz necessário "derramamento de sangue" para que os pecados humanos sejam perdoados por Deus. Todavia, estamos livres daquelas exigências cerimoniais da Lei, uma vez que Cristo, um "única vez", efetuou em nosso favor uma "eterna salvação".

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